Bairro da Paz, periferia de Salvador-Bahia

A terceira edição da Revista Favela S/A chega reafirmando uma certeza que nos move desde o primeiro número: a favela não é ausência. A favela é potência, inteligência, criatividade, trabalho e futuro.

Nesta edição, temos a honra de trazer na capa Dani Redondo, diretora-executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, em uma conversa profunda sobre juventude, inclusão produtiva, tecnologia, empreendedorismo e os muros invisíveis que ainda separam favela e mercado. Quando ela afirma que a inteligência artificial não é o “brilho nos olhos”, nos lembra que, mesmo em tempos de tecnologia, o que transforma o mundo continua sendo gente.

Também publicamos dois artigos fundamentais. Káliman Chiappini, coordenadora do projeto Favela Empreendedora – Mulheres em Movimento, reflete sobre a força das mulheres das favelas e mostra que aquilo que muitos chamam de sobrevivência é, na verdade, uma sofisticada capacidade de gestão, adaptação e criação. Já Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, afirma com clareza que o desenvolvimento do Brasil passa pelas favelas e periferias.

As reportagens desta edição seguem mostrando esse Brasil que cria caminhos onde muitos só enxergam obstáculos. No Rio, o projeto Social Visão do Bem mostra que óculos podem ser também ferramenta de autonomia, autoestima e trabalho. Na Rocinha, a TxWellTour transforma vivência em turismo comunitário e disputa uma nova narrativa sobre a favela. No Grajaú, em São Paulo, a Sabores Divinos prova que comida afetiva também é excelência, renda e expansão. Em Pernambuco, a trajetória de Michelle Nascimento, da Dois Tons Gelateria, mostra como preparo, coragem e estratégia transformam origem em potência. Em Salvador, Paulo Rogério nos lembra que inovação, diversidade e tecnologia também nascem nos territórios periféricos.

Esta edição também representa a força das parcerias que estamos construindo. Seguimos dialogando com o Sebrae, com o Governo da Bahia, com a Prefeitura de Maricá, com o BNDES, com o Instituto Coca-Cola Brasil e com instituições que entendem que investir nas periferias não é caridade: é visão de futuro.

A Favela S/A nasceu para ser vitrine, ponte e ferramenta. Para mostrar quem empreende nas favelas brasileiras e aproximar esses talentos de empresas, governos e instituições que querem construir um Brasil mais justo, mais criativo e mais desenvolvido.

Porque a favela não está esperando o futuro chegar. Ela já está criando esse futuro todos os dias.

Bairro da Paz, periferia de Salvador-Bahia

Um garoto observa sua comunidade do alto de um morro, ele contempla enxergando além do horizonte, imaginando possibilidades enquanto admira o lugar onde nasceu, cresce e sonha com melhores condições e oportunidades.

Entre casas encostadas umas nas outras, algumas concluídas, outras sem reboco, seu olhar se amplia no meio dos becos, vielas, ladeiras e escadarias, contemplando histórias de 44 anos de existência desta comunidade.

Não é só paisagem, é a vida, memórias, é o chão onde se brinca, sonha e aprende a ser forte. Esse olhar carrega a admiração do lugar e o desejo por dias melhores, para quem mora aqui, com dignidade de quem constrói o seu mundo com o que tem.

O Bairro da Paz não é só um lugar no mapa: é gente, é coração, é a minha raiz.

Essa imagem é o retrato de tudo isso.

“Através desses olhares, busco capturar a alma e a força da nossa gente”.

Ubiraci Mendes (Bira Mends)