Ahistória de Joab Moura começa longe dos ateliês. Nasce na periferia de Moreno, cidade da Região Metropolitana de Pernambuco, onde criar não era uma escolha estética, e sim uma necessidade.
Sem acesso a materiais, ele inventava. Desenhava nas paredes de casa, improvisava instrumentos com latas e produzia os próprios brinquedos. “A gente fazia tudo manualmente, porque não tinha coisas compradas. Era o próprio brinquedo, a própria pintura”, relembra.
Ainda adolescente, encontrou na pintura de roupas uma forma de começar. Comprava peças usadas, transformava com tinta e criava algo novo — uma prática que, sem saber, já apontava para o caminho que seguiria anos depois. “Hoje eu trabalho totalmente com moda, mas também com várias técnicas e com a música”, conta.
“Minha maior insegurança era como eu ia gerar renda com o que eu fazia. Eu pensava: como é que eu vou conseguir fazer um desenho e ganhar um dinheiro que eu possa me manter como artista?”
Foi então que a aerografia — técnica de pintura com ar — mudou o rumo da sua trajetória.
“Foi ali que minha vida se transformou. Comecei a usar a roupa como tela, e foi pintando roupa que eu dei meu primeiro passo para melhorar de vida.”
Antes de chegar a esse ponto, a caminhada foi marcada por instabilidade e precariedade. No Rio de Janeiro, vivendo na periferia de Nova Iguaçu, próximo a um lixão, Joab enfrentou um dos momentos mais difíceis da sua vida. Sem renda, precisou recorrer a trabalhos informais para sobreviver.“Eu catava latinha, papelão, fazia vários serviços, ganhando muito pouco. Foi um momento muito pesado.”
Com o pouco dinheiro que restava, decidiu recomeçar em São Paulo. Lá, repetiu a experiência da sobrevivência, mas com uma diferença: não abandonou mais a arte.
A virada veio com a chegada da segunda filha. “Aquilo me deu um clique. Eu comecei a desenhar em casa, juntar material e depois fui para a rua vender.”
Das ruas de Diadema, avançou para regiões como Avenida Paulista, República e Vila Madalena. Foi ali que começou a consolidar sua renda como artista.
A periferia como escola
Para Joab, a periferia não é apenas origem, é fundamento. “A periferia faz a gente tirar água de pedra. Ela te mostra uma realidade muito forte, que só quem vem de lá sabe.”
Mesmo hoje, com um espaço no Centro Histórico de Paraty, ele mantém a rua como lugar de trabalho. “Eu continuo saindo toda noite para vender minhas roupas na mão, divulgando meu trabalho. Minha realidade é a rua.”
Preconceito e resistência
Viver de arte no Brasil significa enfrentar não só dificuldades econômicas, mas também simbólicas. “Às vezes a gente não é respeitado como artista. Existe muito preconceito com o estereótipo: ser preto, rastafári, andar de chinelo.”
Após cerca de um ano atuando como artista de rua em Paraty, Joab conquistou seu primeiro espaço fixo. Assim nasceu o Caminho das Artes, no Centro Histórico da cidade.
O projeto surgiu a partir da parceria com sua companheira, Renata Heringer, responsável por fortalecer a parte organizacional do espaço.
“Eu era muito da rua, não pensava em ter ateliê. Foi ela que me fez enxergar isso.”
Hoje, o Caminho das Artes reúne diferentes linguagens: artes plásticas, moda, música e oficinas. Também funciona como espaço de acolhimento para artistas independentes.
Entre a arte e a sobrevivência
Para manter o espaço ativo, Joab diversifica suas atividades. Atua como músico e professor, levando ritmos nordestinos para diferentes espaços da cidade.
“Eu vou me virando. A música hoje também sustenta a loja.”
Entre as expressões que atravessam sua trajetória, a rabeca ocupa um lugar especial. Instrumento tradicional da cultura nordestina, ela entrou na vida de Joab há cerca de 20 anos, ainda em Pernambuco.
“Aprendi com vários mestres. Hoje eu também confecciono e personalizo.”
Em Paraty, a rabeca ganha novos significados: rodas de forró, apresentações e oficinas gratuitas abertas ao público.
Ao olhar para a própria trajetória, Joab resume sua caminhada em uma palavra: persistência. “Eu saí da minha cidade só com a roupa do corpo e um sonho. Eu trocava sonho por comida, por moradia, por material.”
Hoje, ainda se define como um sonhador.
“Pode estar cansado, pode estar doendo, mas não para. A dor faz parte da conquista.”
E é com essa convicção que ele segue criando. Entre a rua e o ateliê, entre a sobrevivência e a arte, transformando sua história em caminho para outros.










