RAULL SANTIAGO - Empreendedor e ativista

O empreendedorismo nas favelas e periferias do Brasil não nasce de uma escolha romântica, nasce da necessidade. Antes de ser tendência, é sobrevivência. Antes de ser discurso, é estratégia de vida.

Eu sempre disse que não me vejo como empreendedor. Eu sou, antes de tudo, sobrevivente. Comecei a trabalhar ainda criança, carregando bolsa favela acima numa feira do Complexo do Alemão, em troca de alguma ajuda. Não havia plano de negócio, capital inicial ou rede de proteção. Havia urgência. Havia responsabilidade precoce.

Por isso, quando falamos de empreender na desigualdade, é fundamental não romantizar. Empreender na favela significa lidar com ausência de crédito, burocracia excludente, violência cotidiana, racismo estrutural e falta de políticas públicas que sustentem quem decide criar algo do zero. Não é sobre “vencer apesar de tudo”, é sobre não desistir mesmo quando tudo conspira contra.

Ainda assim, o empreendedorismo periférico cumpre um papel central no Brasil. Ele gera renda onde o Estado nem sempre chega com garantias, cria soluções conectadas à realidade local e sustenta famílias inteiras. Muitas vezes, é o que impede que a falta de oportunidade empurre jovens para caminhos marcados pela violência.

Hoje, anos depois daquela feira, sigo construindo, não sozinho, mas coletivamente. A Brecha HUB, por exemplo, tem sido uma ferramenta concreta de geração de renda e dignidade. Neste fim de ano, através do Natal Encantado, conseguimos garantir que ao menos uma dezena de pessoas tivessem um final de ano mais digno. Não é caridade, é circulação de oportunidade.

Estou construindo o Festival Favela Cria, que acontecerá em maio de 2026, como um espaço de valorização da potência cultural, criativa e empreendedora das periferias. Entrei de sócio no Bora Club, uma plataforma que conecta engajamento, tecnologia e experiência real. Estou abrindo uma empresa de last mile, pensando logística a partir dos territórios, e entrando como sócio em um pequeno restaurante japonês na Zona Norte do Rio.

Nada disso apaga a desigualdade estrutural. Nada disso resolve sozinho o abismo social do país. Mas mostra que, quando existe acesso, confiança e investimento, a favela não apenas ajuda, ela responde com trabalho, inovação e solução.

Empreender na periferia não pode ser a única alternativa de vida. Mas enquanto o Brasil seguir negando direitos básicos, o empreendedorismo seguirá sendo uma das poucas saídas possíveis. O desafio é transformar sobrevivência em escolha, informalidade em política pública e potência em desenvolvimento real.

Porque a favela não é carente de talento. Ela é historicamente privada de oportunidade, onde empreender é um dos caminhos de um sobrevivente.