À frente da Caixa Econômica Federal desde novembro de 2023, Carlos Antônio Vieira Fernandes afirma que a instituição deve atuar como agente de desenvolvimento econômico. Segundo o presidente, o banco estatal não deve se limitar à administração de recursos, mas ampliar sua atuação no momento ao crescimento e na movimentação da economia do país.
Em entrevista exclusiva a André Fernandes, fundador da Agência de Notícias das Favelas, na sede da Caixa, em Brasília, Vieira destaca os projetos habitacionais voltados às áreas periféricas, os investimentos em linhas de crédito com foco na inclusão social, a ampliação do acesso ao ProCred 360 e a atuação integrada com o Ministério do Empreendedorismo para alcançar a população das periferias.
Desde que assumiu a Caixa, quais projetos ou iniciativas o senhor destacaria como mais relevantes para fortalecer as favelas e periferias brasileiras?
A Caixa é um banco que vai completar 165 anos de existência no dia 12 de janeiro de 2026. O banco sempre teve um braço social desde a época do Segundo Império, período mais estável e longo do Brasil sob o governo de D. Pedro. À época, a Caixa enxergava na assistência social e na inclusão pilares fundamentais de desenvolvimento do país.
Uma prova disso é que a Caixa se tornou a primeira agência de periferia bancária instalada na Rocinha. Foi um marco, nos anos de 1990.
Estamos com um modelo que a gente chama de “agência itinerante” que é, na verdade, um contêiner estruturado como se fosse uma agência, funcionando por quatro meses aqui no Sol Nascente, cidade com 72 mil habitantes.
Iremos levar esse modelo para outros lugares, é preciso expandir. Por isso, a gente entende que, com a mudança que aconteceu na sociedade, com a percepção sobre o aspecto de inclusão, a Caixa tem um papel relevante. Já fez e fará ainda mais, no sentido de que traga essa população para dentro do contexto socioeconômico que ela merece. Um exemplo é o Celso Furtado, que tinha uma preocupação muito efetiva, o único economista da América Latina que tem uma tese voltada para desenvolvimento social e econômico.
Ao perceber o potencial econômico que tem toda essa população, a gente fará uma transformação social nesse país. Então é assim que a gente entende. É dessa forma que a Caixa se coloca ao lado de todos aqueles que querem, como vocês, uma ação efetiva em relação a essa população.
A Caixa sempre foi um banco com um propósito social muito forte. O que o senhor fez nesses dois anos como presidente?
Em relação à questão da periferia, temos um compromisso amplo junto às comunidades. Nós temos exemplos disso, como o trabalho de inclusão fortíssimo no Jardim Ângela, em São Paulo. Nós já chegamos a destinar mais de R$ 5 milhões em projetos sociais ligados ao local. Além disso, o presidente Lula acaba de lançar o Reforma Casa Brasil, em que as pessoas podem contratar um empréstimo a partir de R$ 5 mil para transformar sua casa ou seu apartamento. Nós temos várias formas de apoio à cultura e ao esporte que vão ajudá-las também.
Pode citar um exemplo?
Existem, em alguns lugares do Brasil, comunidades olímpicas com nosso apoio, onde parte da população periférica é assistida pela Caixa. Dou como exemplo o Centro Paralímpico de São Paulo, onde a população não só periférica, mas é portadora de necessidades especiais e tem um tratamento diferenciado. A Caixa, pelo esporte, está atuando nesse sentido também de inclusão. São muitas ações. Essa ideia do empreendedorismo, agora nos aproximando de vocês, é muito presente no que podemos fazer pelas favelas. A gente sabe que nas favelas tem uma economia própria, uma economia circular, em que precisam de apoio, e a Caixa pode estar junto nisso com certeza.
O que a Caixa tem para oferecer aos empreendedores das favelas e das periferias? Quais produtos de crédito ou programas já estão disponíveis?
Temos uma conta digital que esses empreendedores podem abrir. É uma conta que já tem acesso direto ao crédito. Nós temos uma discussão para ampliar o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Temos o ProCred 360, em que há um incentivo direto com taxas de juros bem diferenciadas para a população. Na Conta MEI, quando você abre, ela já dá condições. São dois grandes caminhos.
Quais novidades ou lançamentos a Caixa prepara para os próximos meses que podem beneficiar diretamente empreendedores e comunidades populares?
Nós temos a Fundação Caixa, que vai ser um grande vetor nesse sentido. A Caixa tem esse estímulo ao crédito pelo ProCred 360 e pela Conta MEI, são dois grandes vetores de inserção do empreendedor. E nós estamos discutindo uma ampliação do chamado microcrédito orientado. A Caixa tem, como todos os bancos, a capacidade de destinar uma porcentagem do seu depósito à vista para essa finalidade. Além disso, estamos começando a criar mecanismos de distribuição desse crédito. E aí fica uma discussão: se você tem uma ONG que é especializada nisso, nós podemos contratar.
Já colocamos agora R$ 500 milhões dentro do microcrédito, que é adequado exatamente para aquela população que está ali na periferia, que faz atividade laboral dentro da sua casa, um caminho. Fico olhando para isso e me lembrando das ações dentro do Rio de Janeiro, por exemplo, das praias, o vendedor do sanduíche, o vendedor que leva o caldo, o suco, o próprio pipoqueiro e tantas outras coisas. Tudo isso poderá ter um incentivo da Caixa.
Os pequenos agricultores já recebem crédito da Caixa pelo microcrédito. A intenção é fazer o mesmo nas periferias?
Estive recentemente na Índia, lá o valor do microcrédito é menor. A gente sabe que com até 500 dólares você faz uma revolução na vida das pessoas. E a Caixa está disposta a fazer isso nas favelas. Mas começamos com o que chamamos de hipossuficiência economicamente, da agricultura familiar. Então nós já vamos colocar esse ano R$ 1,5 bilhão de crédito no valor de até R$ 10 mil. Imaginem, nós vamos chegar a cerca de 200 mil pequenos agricultores recebendo crédito da Caixa pelo microcrédito. Imagina um trabalho desse também junto à população periférica…
Muitos moradores de favelas ainda encontram barreiras para acessar serviços bancários básicos. O que a Caixa tem feito para simplificar e ampliar o acesso ao crédito e à bancarização?
Desde 2003, por exigência do presidente Lula, a Caixa foi o banco que trabalhou o processo de bancarização da população brasileira. Nós, durante esses anos, bancarizamos no país 37 milhões de famílias, pessoas que não tinham acesso ao crédito. Atualmente os meios digitais permitem um acesso amplo às contas do Cadastro Ambiental Rural (CAR), às contas Caixa Tem e às contas MEI. Mas, dependendo de uma ação mais estruturada, dá para levar essas “novas agências” em um caminhão reboque e colocá-las por um período em uma determinada área.
Nós fizemos isso em Sol Nascente. Foi um sucesso absoluto. É mais uma forma também de gerar bancarização, de gerar redução de custos, de deslocamento para buscar informações sobre FGTS, sobre os programas sociais e outras informações. É, porque não dizer, uma outra forma de trazer a população periférica para dentro do mundo da bancarização.
“A gente quebra uma lógica estabelecida quando abre as oportunidades, porque não há nada que diferencie um favelado de quem está na Faria Lima.”
Totalmente. Lançamos há menos de um mês um programa chamado Doyate, que vai ser o maior programa de retorno de cashback. Nós temos várias ações voltadas para a inclusão de educação financeira dentro do jogo da plataforma do Roblox, que a Caixa tem.
E há algum benefício para a população periférica?
Nós vamos dar incentivos, inclusive financeiros, para que isso ocorra. Mas esse programa é extremamente estruturado. Tem uma outra coisa da qual a população periférica pode se beneficiar, que são os benefícios direto e imediato da redução de custo de alimentação básica. Já estamos fazendo isso dentro desse programa, desde que a pessoa tenha um cartão da Caixa. É bom destacar que esse programa é um incentivo para a redução de custo, por exemplo, na compra de alimentos e medicamentos. Tem uma redução dada como subsídio que o próprio cartão de crédito vai dar.
Como a Caixa pode se comunicar melhor com as favelas? Que tipo de linguagem ou iniciativas podem aproximar ainda mais o banco da realidade dessas populações?
Como diria Pierre Bourdieu, sociólogo francês, a comunicação é instantânea porque, em certo sentido, ela não existe. A gente sabe que na dinâmica de comunicação, dentro da favela, é fundamental. A gente está disposto a conhecer os influenciadores que mais atuam. Como é que a gente pode usar essas pessoas da favela como meio de levar uma mensagem que mostre que a Caixa é um banco social. O propósito da Caixa é ajudar a transformar a vida das pessoas.
Quantas pessoas são beneficiadas pelas iniciativas da Caixa? Qual o perfil médio dos clientes?
A Caixa é um banco que tem 152 milhões de clientes, então ela é segregada por atividades. Os programas sociais atingem mais de 20 milhões de brasileiros todos os meses. Temos alguns programas com governos locais também que complementam esse tipo de ação. Fora isso, a Caixa é um banco que faz, em média, 3 mil operações de crédito habitacional por dia.
Quanto foi destinado para a habitação?
No ano passado, o banco destinou R$ 223 bilhões para a habitação. Somos o banco que trabalha o Minha Casa Minha Vida, programa fundamental do governo Lula. Para se ter uma ideia, de todas as transações feitas via PIX no Brasil, 25% são pela Caixa.
“Estamos dispostos a conhecer os influenciadores que mais atuam nas favelas”
Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os moradores das favelas brasileiras que empreendem, trabalham e sonham com melhores oportunidades?
A mensagem é que eles estão no caminho certo. O empreendedorismo é um movimento no mundo inteiro, com muita força. E se eles estão no caminho certo, eles podem contar com a Caixa, que tem esse propósito. O empreendedor já nasce empreendedor. Seja na favela, seja na Faria Lima. O que acontece de diferente é que quem nasce na Faria Lima estudou nas melhores escolas, teve acesso às melhores universidades. E, diferentemente do favelado, nasce com uma estrutura que favorece seu caminho.
Por isso, é preciso que existam bancos como a Caixa, que conseguem fazer acontecer de forma efetiva. Contem com a Caixa, a Caixa é o banco adequado para fazer isso. A gente quebra uma lógica estabelecida quando você abre as oportunidades, porque não há nada que diferencie um favelado de quem está na Faria Lima.
Do ponto de vista do potencial, ele vai fazer diferença em uma sociedade que é ainda muito carente em tantos aspectos. O Brasil é um país todo por fazer. Seja na sua infraestrutura rodoviária, aeroportuária, urbana… Nós temos um contexto social pronto para receber esses empreendedores. Contem com a Caixa!









