Nascido e criado no Jardim Elba, bairro da região de Sapopemba, periferia de São Paulo, Nobru, de 41 anos, sempre teve a vida atravessada pela arte: a avó poetisa, o avô pintor e a mãe, que por dez anos foi rainha e madrinha de bateria. Desde os 14, tinha o pixo como expressão e circulava pela cultura hip hop, respirando referências que, mais tarde, fariam sentido. Foi uma queda enquanto desenhava palavras em uma fachada que mudou completamente sua trajetória don.
Sob efeito de álcool, caiu de um muro que estava escalando, sofreu traumatismo craniano e, ao despertar do coma, percebeu que precisaria recalcular a rota. Afastou-se da rua e do álcool, refugiou-se em uma residência artística onde, mesmo sem saber desenhar, encontrou no gesto de imprimir tipografia de pixo em quadros uma forma de reorganizar seus sentidos, incentivado pelo amigo André Belizário.
Durante a pandemia esse impulso ganhou outra direção quando decidiu pintar as roupas do antigo brechó que sua companheira, Dani Ursogrande, tinha em casa. A intenção era simples e potente: permitir que a arte deixasse de ser estática e passasse a ocupar o mundo em movimento e em diferentes corpos. Foi desse impulso experimental que nasceu o primeiro passo da SP Paris. Influenciado pelo lifestyle urbano e pelo skate, Nobru começou a criar vídeos para dar contexto à criação das peças. Em pouco tempo, recebeu um convite para expor com o amigo André no ateliê TrêsCincoOito, localizado em uma antiga escola desativada do Cambuci.
Em vez de uma exposição tradicional, Nobru decidiu montar um desfile improvisado, ainda que não soubesse como estruturar a proposta. Com sua companheira ao lado e amigos próximos como modelos, o evento tomou forma sob o nome SP Paris, em uma provocação que misturava a estética da cultura de rua de São Paulo com o imaginário da alta-costura parisiense. A proposta atraiu um grande público, incluindo o estilista Arlindo, do “Esquadrão da Moda”, programa de TV. Ali, sem que soubesse, a marca começava a ganhar maiores projeções.
O desfile abriu portas e levou a SP Paris a outro evento na cidade, desta vez no Espaço Cultural Bananal, na Barra Funda. Para isso, teve a colaboração da estilista e DJ Jasmin, amiga que compartilhou com ele o desencantamento com o mercado da moda e foi peça-chave para levar Nobru a pautar a ambiental — a indústria da moda é a segunda mais poluidora do mundo. Jasmin sugeriu que a primeira coleção oficial, batizada “Dispersão”, fosse feita integralmente com materiais de reuso. A matéria-prima veio por meio de doações de um projeto social da quebrada onde foi criado, o que ampliou o impacto da iniciativa. O desfile no Bananal seria lembrado por Nobru como o verdadeiro batizado da SP Paris, que então deixou de ser apenas uma marca e se tornou um coletivo de moda e arte contemporânea.
Enquanto tomava forma, o impacto social do trabalho de Nobru se tornava cada vez mais evidente. Ele voltou ao Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), projeto social que frequentou durante a infância. Ali ajudou a criar fantasias para o Bloco Eureka (Eu Reconheço o Estatuto da Criança e do Adolescente), importante movimento de Carnaval que usa a cultura e a arte para defender os direitos de crianças e adolescentes no Brasil. Mais uma vez, usou resíduos, agora em parceria com a cooperativa Libertas, formada por mulheres egressas do cárcere.
Ao longo de 2025, encontrou na Fundação Casa o ambiente de maior transformação: lecionou moda e arte para internos, ensinou customização e ressignificação de roupas como ferramenta de autoestima e expressão. As peças criadas, que ele descreve como “cartas em movimento”, tornaram-se veículos de narrativa e valor autoral para jovens marginalizados que raramente têm sua voz ouvida. Ao compartilhar sua própria história, Nobru mostra para eles alguns caminhos possíveis na arte e na cultura.
Com o coletivo já consolidado, vieram os momentos emblemáticos. Um dos mais recentes foi o desfile na Semana de Moda de Paris, onde a SP Paris levou para a passarela uma intervenção inspirada em manifestações, diversidade de corpos e camadas sociais. Quarenta pessoas de um hospital psiquiátrico francês, incluindo imigrantes e pessoas com deficiência física e intelectual, vestiram as peças.
A experiência europeia abriu novos caminhos. Para Nobru, ocupar espaços elitizados significa furar a bolha e transformar o acesso adquirido em recursos e conhecimento devolvidos à base.
“A SP Paris não é uma marca, mas um coletivo.”
E nada teria acontecido sem Dani, sua companheira, mãe de Doroty Martos e todas as pessoas que estiveram presentes em cada ação realizada ao longo desses quatro anos de existência.
Neste primeiro semestre de 2026, a SP Paris prepara um marco importante: um grande desfile público reunindo cerca de 60 looks produzidos pelos jovens da Fundação Casa. Serão, mais uma vez, “cartas em movimento”, agora prontas para atravessar o mundo, assim como a própria história de Nobru atravessou mudanças, rupturas e novas possibilidades para se transformar.










