
Por trás dos dados, algoritmos e plataformas tecnológicas criadas para combater a violência contra a mulher, existe uma história construída por memória afetiva, urgência coletiva e teimosia. A trajetória da publicitária e empreendedora social Simony Cesar, 33 anos, nasce no território de Dois Unidos, na Zona Norte do Recife, onde aprendeu, ainda criança, que cuidar do coletivo também é uma forma de transformar o mundo.
Ali, entre ladeiras, ruas estreitas e desafios estruturais comuns às periferias brasileiras, Simony construiu o que hoje se tornou referência internacional em inovação social e mobilidade urbana com perspectiva de gênero.
Antes mesmo de entender o significado da palavra empreendedorismo, Simony já vivia, na prática, o que ele representa. Sua principal inspiração veio da avó, Alda Cesar, que se tornou liderança comunitária ao transformar a própria casa em espaço de educação popular durante a década de 1970, período em que o acesso à escola ainda era um privilégio distante para muitas crianças da comunidade.
Foi no terraço da casa da avó que surgiram aulas de reforço escolar, reuniões coletivas e articulações sociais que ajudaram a estruturar uma associação comunitária que existe até hoje. Mais do que ensinar matemática ou português, aquela mulher ensinava sobrevivência, autonomia e solidariedade.

terraço da própria casa em espaço de educação popular durante a década de 1970
“Minha vó foi essa referência de pessoa que resolve tudo. Mesmo com dificuldade, mesmo não sendo uma demanda dela propriamente dita, se chegava nela, ela ia lá e resolvia”, lembra.
Foi também com ela que Simony aprendeu a ler e escrever antes mesmo de entrar na escola. A avó se tornou sua primeira educadora, tutora emocional e referência de liderança feminina.
A infância, no entanto, também foi atravessada por ausências. Filha de uma mãe que engravidou jovem e precisou migrar em busca de trabalho, Simony cresceu entre cartas, saudades e a responsabilidade precoce de compreender o mundo com maturidade.
A mobilidade urbana como ponto de partida
A mobilidade urbana sempre esteve presente na história da família. A mãe de Simony trabalhou como cobradora de ônibus, assim como outros parentes que atuaram no sistema de transporte público. Desde cedo, a menina aprendeu que aquele trabalho carregava não apenas o sustento, mas também riscos diários.
“Quando eu tinha 8 ou 9 anos, lembro de ouvir o caso de um vizinho que também era cobrador de ônibus e teria sofrido um assalto. E, mesmo entregando a renda, levou um tiro”, relata.
O medo de perder a mãe para a violência urbana foi um sentimento constante durante a infância. Em 2013, já universitária e estagiária em uma empresa de transporte, essa memória ganhou novo significado quando Simony passou a observar como mulheres enfrentavam situações semelhantes de medo e insegurança ao se deslocarem pela cidade.
O ponto de virada veio com casos de violência sexual contra estudantes em trajetos universitários. Em 2016, o incômodo pessoal transformou-se em inquietação acadêmica. Sem imaginar que aquele seria o início de um negócio, Simony começou a pesquisar a relação entre violência de gênero e mobilidade urbana.
Ela descobriu algo alarmante: praticamente não existiam dados sistematizados sobre esse tipo de violência. A importunação sexual, por exemplo, sequer era considerada crime na época. Foi nesse vazio estatístico e social que surgiu a pergunta que mudaria sua trajetória:
“Como enfrentar um problema que sequer é registrado?”
“Inicialmente, esse foi um movimento instigado pela motivação pessoal, pelo querer entender o fenômeno. Assim foram nascendo artigos e pesquisas de forma autônoma. Posteriormente, um amigo que acompanhava minha trajetória nos estudos, me provocou a pensar em possíveis soluções práticas para o problema e buscar maneiras de fomentar essas soluções”, explica.
Quando o celular vira ferramenta de proteção
Durante as leituras acadêmicas, Simony percebeu o potencial do celular como instrumento de denúncia, registro e produção de dados. A partir de pesquisas, participação em hackathons e programas de inovação, ela começou a desenhar o que viria a se tornar a SuperNinaMob, plataforma tecnológica que permite registrar ocorrências de violência, mapear dados e auxiliar o poder público na criação de políticas preventivas e estratégias de segurança para mulheres nos transportes públicos.
O caminho, porém, foi atravessado por jornadas duplas, triplas e múltiplos desafios. Simony conciliava graduação, trabalho, cursos técnicos e o desenvolvimento da startup. Muitas vezes, a empresa nascia nas madrugadas, entre projetos acadêmicos e demandas profissionais.
O primeiro grande impulso veio com a participação em programas de empreendedorismo social e editais de inovação. “O primeiro edital em que fui aprovada foi o da Red Bull. Ele focava na formação do empreendedor e me ajudou muito com mentorias e no meu desenvolvimento como empreendedora social de fato. Já o edital da Toyota foi um processo com muitas etapas e bem exaustivo, mas muito importante para fomentar a empresa. Das seis empresas brasileiras, a Nina foi uma das finalistas. Na época, recebi 20 mil dólares que permitiram os primeiros investimentos”, explica.
Ser mulher, nordestina e periférica em espaços de inovação
A ascensão de Simony no ecossistema de tecnologia e empreendedorismo não aconteceu sem barreiras, pois era umm ambiente predominantemente ocupado por homens cis héteros brancos. Em muitos eventos, ela era a única mulher, a única nordestina e, frequentemente, a única pessoa não branca nos espaços de discussão sobre inovação.
“Lembro da estranheza e dos comentários constrangedores que ouvi de pessoas que não estavam acostumadas com a presença de pessoas como eu naqueles espaços”, aponta.
Sabendo de onde veio e quais raízes carregava, essas experiências, embora desafiadoras, fortaleceram sua convicção de que soluções tecnológicas precisam nascer da diversidade racial, social e territorial do país.
A SuperNinaMob foi implementada pela primeira vez em Fortaleza, em 2018, justamente no período em que a importunação sexual passou a ser reconhecida como crime no Brasil. A coincidência histórica impulsionou o uso da tecnologia como ferramenta estratégica para o enfrentamento da violência de gênero.
Desde então, a plataforma passou a ser utilizada por gestões públicas para mapear ocorrências, identificar áreas de risco e estruturar protocolos de atendimento às vítimas. Hoje, a empresa atua como uma fábrica de tecnologias sociais, oferecendo soluções baseadas em dados para prevenir e combater a violência urbana com recorte de gênero.
Mesmo dedicando a vida ao desenvolvimento de soluções de segurança, Simony também enfrentou a violência urbana na pele. Em um assalto, sofreu agressões que deixaram sequelas físicas permanentes.
A experiência, embora traumática, aprofundou sua compreensão sobre vulnerabilidade urbana, especialmente para mulheres negras e periféricas. Desde então, passou a defender uma abordagem ainda mais ampla sobre mobilidade e segurança nas cidades.
A trajetória de Simony ultrapassou fronteiras. Premiações nacionais e internacionais, participação em eventos globais de inovação e programas de intercâmbio consolidaram seu nome como referência em tecnologia social.
Ela já representou o Brasil em iniciativas internacionais voltadas à mobilidade urbana e ao desenvolvimento de soluções com impacto social, como o prêmio “Rumbo a la Equidad”, um dos principais reconhecimentos internacionais em mobilidade e equidade, e é figura confirmada em grandes eventos globais comprometidos com a formação de novas lideranças.
Recentemente, foi selecionada para programas de formação empreendedora nos Estados Unidos, voltados à expansão de tecnologias sociais para mercados globais.
Apesar do reconhecimento, Simony mantém o olhar voltado para o território onde tudo começou. Ela costuma afirmar que sua trajetória não é resultado apenas de esforço individual. Programas de acesso à universidade, políticas de permanência estudantil e incentivos públicos foram fundamentais para sua formação.
Por isso, hoje, a empreendedora social defende que ampliar o acesso à educação e à tecnologia é um passo essencial para que meninas periféricas possam ocupar espaços de liderança. Seu trabalho, mais do que desenvolver tecnologia, busca abrir caminhos para novas narrativas sobre o que significa ser mulher, periférica e empreendedora no Brasil.
O legado das mulheres que vieram antes
Ao falar sobre o futuro, Simony sempre retorna ao passado. À avó que ensinava crianças no terraço de casa. À mãe que enfrentava madrugadas nos ônibus para sustentar a família. Às mulheres invisibilizadas que inspiraram a criação da SuperNinaMob.
Sua trajetória mostra que inovação social não nasce apenas de ideias disruptivas, mas de histórias, afetos e urgências reais. Simony Cesar transformou medo em pergunta, pergunta em pesquisa e pesquisa em solução. E, ao fazer isso, construiu uma tecnologia que não apenas coleta dados, mas também protege vidas, especialmente aquelas que, historicamente, tiveram seus trajetos marcados pela vulnerabilidade.









