Do subúrbio ferroviário de Salvador para universidades como Harvard e MIT, ele mostra que a periferia nunca foi ausência sempre foi resposta

Ele nasceu onde o acesso não chega. Onde não havia cinema, teatro, escola de idiomas, nem sequer uma banca de revista. No subúrbio ferroviário de Salvador, no Alto de Terezinha, Paulo Rogério aprendeu cedo que, para existir no mundo, seria preciso criar caminhos que ainda não estavam dados — e foi exatamente isso que ele fez. Como ele mesmo resume: “Eu precisei ser um grande tradutor de códigos sociais o tempo todo.”

Entre a escassez e a descoberta, entre o território e o mundo, ele construiu uma trajetória que não cabe em rótulos simples. Aprendeu inglês nas ruas do Centro Histórico, conversando com turistas. Descobriu a tecnologia ainda no início da internet no Brasil, estudou programação, consertou computadores e, assim, abriu caminhos onde não havia referência.

Curiosidade, comunicação e tecnologia foram os três pilares que mudaram sua vida — mas foi o território que moldou sua visão. “Eu conheço os dois mundos: o da abundância e o da escassez. Isso me faz um profissional mais completo”, explicou Paulo.

Essa travessia entre mundos não foi apenas geográfica — foi social, simbólica e política. Sem referências familiares na universidade ou no mercado formal, Paulo precisou aprender sozinho os códigos da classe média, da elite e também dos espaços de exclusão. “Eu aprendi esses códigos de forma orgânica, hackeando o sistema”, diz. E foi assim que Paulo passou a se definir: “Eu hackeei o meu próprio futuro.”

DO SUBÚRBIO PARA
O MUNDO E DE VOLTA
PARA SALVADOR

A trajetória atravessou fronteiras. Ele estudou nos Estados Unidos, passou por universidades como MIT e Harvard, participou de programas internacionais e conheceu mais de 25 países. Foi ao voltar para Salvador que entendeu onde deveria atuar.

A cidade, potência criativa e cultural, ainda estava presa a um modelo econômico limitado, concentrado em turismo, festas e sazonalidade.

“Salvador não pode depender só de verão, festa e Carnaval. Isso não sustenta o ano inteiro.” Foi desse incômodo que nasceu o Vale do Dendê, hub de inovação focado em economia criativa, que já apoiou mais de 4 mil negócios.

Mais do que números, o impacto foi simbólico e político. O projeto ajudou a posicionar o debate sobre economia na cidade, colocando periferia, diversidade e criatividade no centro da discussão.

EMPREENDER NA PERIFERIA É RESISTIR TODOS OS DIAS


Para quem vem da periferia, empreender nunca é apenas abrir um negócio. É enfrentar ausência de infraestrutura, dificuldade de acesso a crédito, falta de políticas públicas e um mercado que não foi pensado para incluir. E, quando esse empreendedor tenta ocupar outros espaços, surgem novos obstáculos — mais silenciosos, mas igualmente excludentes.
Segundo Paulo, “o Brasil não é um país pobre. É um país com capital concentrado”. O problema, para ele, não está na capacidade, mas no acesso. Enquanto isso, cidades como Salvador seguem com mercados considerados fechados, com poucas oportunidades estruturadas e forte dependência de outros centros, como São Paulo. Ainda assim, ele não tem dúvidas: “Se tem um lugar criativo no Brasil, é Salvador.”

O FUTURO JÁ CHEGOU E
NÃO ESPERA NINGUÉM

Se existe algo que marca o pensamento de Paulo Rogério, é a capacidade de antecipar movimentos. Para ele, o mundo vive um novo marco tecnológico — comparável ao surgimento da internet e dos smartphones. A inteligência artificial já não é tendência, é realidade. Mas tecnologia, sozinha, não resolve tudo. “Saber lidar com pessoas e com mudanças vai ser tão importante quanto saber usar as ferramentas”, afirma.
Num cenário de transformações rápidas, habilidades emocionais passam a ser tão estratégicas quanto o domínio técnico.

DIVERSIDADE NÃO É PAUTA,
É MOTOR DE INOVAÇÃO

Autor de Oportunidades Invisíveis, Paulo sustenta uma ideia que atravessa toda a sua trajetória: “Sem diversidade, não existe inovação.” Para ele, inovação não nasce da repetição, mas do encontro entre diferentes vivências, territórios e perspectivas. “Não dá pra inovar olhando o mundo sempre do mesmo lugar.” Mais do que inclusão simbólica, diversidade é estratégia de desenvolvimento econômico e social.

QUEM NÃO PODE SONHAR, NÃO
CONSEGUE PLANEJAR O FUTURO

Mas talvez o ponto mais profundo da sua análise esteja na relação entre desigualdade e futuro. Para jovens negros e periféricos, o direito de sonhar ainda é limitado. A pior forma de opressão é quando se tira da pessoa a possibilidade de sonhar com o futuro. Quando a sobrevivência ocupa todo o presente, o planejamento do amanhã se torna um privilégio.
É justamente nesse espaço que Paulo atua, antecipando tendências, traduzindo cenários e criando pontes para que mais pessoas possam acessar o futuro antes que ele aconteça.

A PERIFERIA NÃO É O
PROBLEMA — É A RESPOSTA

Ao longo da trajetória, vieram reconhecimentos nacionais e internacionais. Mas, para ele, o mais importante não é o título — é o impacto: criar caminhos para que outras pessoas também consigam chegar. Porque, no fim, a disputa não é apenas por espaço — é pelo futuro.
“A periferia é a inovação que poucos querem ver.” E vai além: “O próximo grande projeto, o próximo prêmio, a próxima inovação pode sair de uma favela.”

A história de Paulo Rogério não é sobre exceção, é sobre possibilidade. Enquanto o acesso ainda é limitado, ele segue fazendo o que sempre fez: criando rotas onde não havia estrada, hackeando sistemas, reescrevendo destinos e mostrando, na prática, que a periferia nunca foi ausência — sempre foi potência.