O que era uma fábrica de tecidos hoje funciona como fábrica de sonhos. Em um casarão antigo anexo ao Shopping Nova América, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio, a Ancar e seus sócios mantêm há 30 anos o projeto social Plantando o Amanhã.
Ao longo dessas três décadas, o projeto já atendeu mais de 7 mil crianças, adolescentes, jovens e adultos da região.
O presidente da empresa, uma das maiores de capital privado de shoppings do Brasil, Marcelo Carvalho recebeu a Favela S/A para falar sobre a importância do social em um país tão desigual.

Favela S/A: O futuro dos grandes grupos passa necessariamente por ESG ou isso já deveria ser uma premissa?
Marcelo Carvalho: Vejo que as empresas de modo geral têm uma apresentação sobre ESG como uma pauta importante. O Sérgio, meu pai, durante muitos anos teve uma preocupação muito grande com esse tema. Agora entendo que isso passa a ser uma questão essencial. É preciso mostrar as ações, criar mecanismos, estabelecer metas e dar mais visibilidade ao que é feito.
Favela S/A: As favelas movimentam bilhões por ano no Brasil. Você acha que o mercado tradicional ainda está preparado para esse mundo ou já percebe essa potência?
Marcelo Carvalho: Acredito que já notou, sim. Esse movimento está muito ligado à própria política do Governo Federal e às mudanças sociais, através de auxílios sociais e outras políticas públicas que elevam o nível social das pessoas. Isso impulsiona o consumo e fortalece a classe média e a classe C. E consequentemente, aumenta o poder aquisitivo desse consumidor, gerando maior movimentação nos centros comerciais e no varejo.
Favela S/A: O que falta para as grandes empresas olharem para a periferia de forma estratégica e não apenas como público consumidor?
Marcelo Carvalho: O crescimento da economia passa pela inclusão social. O desenvolvimento da periferia fortalece a economia do país. Excluir a periferia é um erro estratégico de país. Quando a periferia cresce, todos crescem, inclusive o mercado de trabalho e o consumo.
Favela S/A: O livro do seu pai mostra uma forte preocupação social. De que forma esse legado moldou sua visão?
Marcelo Carvalho: Os bons exemplos arrastam. Fui educado desde muito cedo a participar com a sociedade das nossas ações. Talvez dentro da empresa tenha mais foco e atenção à relação com a comunidade, embora essa seja uma relação natural, porque nossos empreendimentos fazem parte da nossa cultura e dos nossos valores. Sempre tive esse sentido. Conheci a Ancar ainda jovem e desde então tenho essa visão.
Com o apoio da Ancar e do voluntariado, já impactamos mais de 500 mil jovens. Estamos em 320 escolas públicas contribuindo com formação, capacitação e desenvolvimento de jovens, aplicando a metodologia da JA (Junior Achievement). Um dos pilares é a trilha empreendedora, preparando esses jovens para profissões do futuro, educação financeira e empreendedorismo.


O grupo está constantemente pensando estratégias de ampliação e aperfeiçoamento dos serviços que oferece
Favela S/A: Como vocês enxergam o papel dos shoppings como hubs de impacto social e iniciativas voltadas para pequenos empreendedores?
Marcelo Carvalho: Temos vários exemplos que estamos desenvolvendo, olhando para líderes empreendedores dentro das comunidades. Queremos um lugar em que possamos apoiar essas lideranças para serem melhores líderes comunitários nas suas áreas. O shopping tem um limite físico. O número de crianças, jovens e pessoas que podem ser impactadas dentro do shopping é limitado. Por isso, investimos na capacitação de lideranças comunitárias para que levem esse conhecimento adiante.
Favela S/A: Em que momento você percebeu que o sucesso empresarial precisava estar conectado ao impacto social?
Marcelo Carvalho: Tenho uma visão um pouco mais romântica de que todo empresário precisa lidar com a responsabilidade social e entender seu papel dentro da sociedade. Sempre tive esse entendimento. Acredito que as empresas têm um papel social importante e precisam atuar de forma responsável com a sociedade.
Favela S/A: Como essa história começou?
Marcelo Carvalho: Esse projeto nasceu antes da inauguração do Shopping Nova América. O Sérgio Carvalho (fundador da Ancar) já tinha essa preocupação social e decidiu transformar uma antiga fábrica em um espaço de impacto social. Ao longo dos anos, fomos evoluindo, ampliando as ações e estruturando melhor os serviços que oferecemos. É um orgulho muito grande ver o que construímos.
Favela S/A: Você acredita que é possível criar pontes concretas entre shoppings e empreendedores das periferias?
Marcelo Carvalho: Com certeza. Ainda há muito espaço para isso. A proximidade entre shopping e empreendedor periférico pode gerar oportunidades importantes. É um mercado grande, com enorme potencial, e precisamos estimular essas conexões.
Favela S/A: O que precisa mudar na visão do empresário brasileiro para que ele enxergue melhor a potência social da periferia?
Marcelo Carvalho: Em algum momento o empresário brasileiro deixou de entender melhor o desenvolvimento social do país. Talvez esse seja o ponto principal. Precisamos retomar esse olhar. As empresas têm um papel fundamental nesse processo e devem contribuir mais com esse desenvolvimento.
Favela S/A: Qual mensagem você deixa para os empreendedores das periferias do Brasil?
Marcelo Carvalho: Não desistam. Acreditem. É possível alcançar seus objetivos. No fim do dia, todo mundo tem dificuldades, mas é importante manter uma visão positiva da vida. Sonhe grande, mas comece pequeno e evolua com o trabalho.
Favela S/A: Qual a sua visão sobre o papel da educação e da capacitação no desenvolvimento social?
Marcelo Carvalho: Acredito que a educação é a base de tudo. É fundamental dar oportunidades para as pessoas crescerem e se desenvolverem. A capacitação é essencial para criar oportunidades reais de transformação social.
Citação final (destaque):
“Em algum momento na história do Brasil o empresário deixou de entender sua responsabilidade para o desenvolvimento social do país.”
— Marcelo Carvalho










