Licor de nêspera - Antepasto de shimeji - Shimejis brancos

O turismo e o empreendedorismo sempre andam de mãos dadas. Em qualquer lugar do mundo, em cada cidadezinha turística, há sempre uma barraca com comida típica, artesanato ou produtos regionais. São polos de cultura e gastronomia. E no Grajaú, distrito mais populoso da cidade de São Paulo, também é possível turistar e empreender.

Na Ilha do Bororé, bairro rural da zona sul da capital, o casal Ligiane Antunes da Costa Oliveira, 43 anos, e Reginaldo Oliveira Santos, 47, transformou uma mudança de vida em negócio. Há seis anos e meio, eles fundaram a Coguli, empreendimento que une cultivo de cogumelos, produção artesanal de alimentos e turismo rural de base comunitária.

A ideia surgiu a partir de um desejo antigo de viver em meio à natureza. Ligiane trabalhava na área de saúde há cerca de dez anos, em um ambiente fechado, sem contato com o sol ou com o ar livre. “Eu entrava de manhã e saía à noite. Não via chuva, não via sol”, relembra. O cansaço físico e emocional despertou a vontade de mudar de área. Reginaldo, que atuava na área de telecomunicações e cursava gastronomia, também compartilhava o sonho de morar em uma chácara.

O ponto de virada veio em uma viagem à cidade de  Cunha, onde o casal se hospedou na casa de uma produtora de cogumelos. Encantados com o cultivo, trouxeram alguns sacos para consumo próprio. A primeira colheita foi abundante — e o excedente começou a ser vendido para amigos e colegas de trabalho. No fim de 2019, passaram a produzir também para restaurantes.

Com o crescimento da demanda, alugaram um galpão e chegaram a cultivar 600 sacos simultaneamente. Mas a pandemia interrompeu os planos. “Da noite para o dia, tudo fechou”, conta Ligiane. Foi nesse período que conheceram a Ilha do Bororé e decidiram apostar na mudança. Em abril de 2021, alugaram um espaço na região, construíram um galpão improvisado e transferiram a produção. Dois meses depois, Ligiane foi desligada do emprego e o casal decidiu investir de vez no novo caminho. Compraram a propriedade onde estão instalados hoje.

Do cultivo ao turismo de base comunitária

Além do cultivo — considerado o “coração” do negócio — a Coguli ampliou sua atuação e seu empreendedorismo. Para enfrentar a fragilidade dos cogumelos, por serem perecíveis, passaram a desenvolver produtos com maior tempo de prateleira: cinco sabores de antepastos, kit risoto, farofa proteica, cerveja de cogumelo, licores, cachaças aromatizadas e conservas feitas com frutas e pimentas do quintal.

O turismo surgiu quase por acaso. Ciclistas que atravessavam a balsa começaram a visitar a produção para degustações e compras. A experiência evoluiu para o turismo pedagógico e de base comunitária. “Hoje, o espaço recebe escolas públicas e privadas, além de instituições como o SESC e o Senac para vivências com visita guiada e almoço”, destaca Ligiane.

A iniciativa também integra programas municipais, como o VAI de Roteiro e o Rolê Agrícola, que levam estudantes do sexto ano para conhecer propriedades agrícolas da região. Os alunos participam de atividades educativas, almoçam no local e levam para casa uma mochila com produtos da agricultura familiar.

O apoio público tem sido fundamental. Por meio da Casa da Agricultura, o casal recebe orientação técnica, análise de solo, biofertilizantes e apoio com maquinário. “Em grandes eventos gastronômicos da capital, como o SP Gastronomia, produtores locais participam sem custo, ganhando visibilidade e ampliando as vendas”, enfatiza Ligiane.

Estar dentro da capital também é estratégico. A proximidade com bairros como o Grajaú facilita o escoamento da produção, mesmo com o desafio logístico da travessia de balsa. A umidade da região, influenciada pela represa Billings e pela mata preservada, também favorece o cultivo dos cogumelos.

Para o casal, o modelo de turismo faz diferença. Ao contrário do turismo de massa, que pouco consome no território, o turismo sustentável movimenta o comércio local, fortalece produtores e gera renda na própria comunidade.

Hoje, a Coguli conta com um funcionário fixo, vinculado a um programa municipal, além de colaboradores eventuais em dias de grupos e eventos. Para os próximos anos, o plano é investir em estrutura, como construir uma loja física para comercializar produtos próprios e de outros agricultores da ilha, além de montar uma cozinha industrial que permita ampliar o atendimento a visitantes.

Ligiane acrescenta que a expectativa é crescer junto com o território. Com dois parques naturais já em funcionamento e a inauguração do Parque das Castanheiras prevista na região, o fluxo de visitantes tende a aumentar. “Muita gente vem conhecer os parques e procura um lugar para almoçar. A gente quer estar preparado para receber cada vez melhor”, diz.

Na periferia mais populosa da capital paulista, a Coguli mostra que é possível produzir alimento de qualidade, gerar renda e transformar o turismo em ferramenta de desenvolvimento local — tudo isso dentro da maior metrópole da América Latina, a aproximadamente 35 quilômetros do centro de São Paulo.