
As bolachas produzidas por Daren Ferreira da Luz não começaram no açúcar, na farinha ou no glacê. Suas misturas são feitas de luta pela sobrevivência, ausência de representatividade, esforço contínuo e criatividade. Não são apenas bolachas com rostos de mulheres negras ou formatos inovadores, mas soluções de economia criativa para questões que a atravessaram durante toda a vida. Antes de criar as próprias imagens e transformá-las em produto, Daren também cresceu em um mundo onde as referências de mulheres negras eram escassas e onde era quase impossível imaginar uma inovação financeiramente sustentável pautada na representatividade.
Para mulheres negras, o percurso profissional no Brasil raramente é linear. Ele é feito de improvisos, aprendizados não formalizados, constante recálculo de rota e necessidade permanente de provar competência. Embora representem uma fatia expressiva dos novos MEIs, o abismo estrutural é evidente: enquanto a taxa de fechamento de empresas entre homens brancos gira em torno de 18%, entre mulheres negras a descontinuidade pode ser até 35% superior. Além disso, o faturamento médio desse grupo é cerca de 46% menor que o de mulheres brancas e 59% inferior ao de homens brancos, conforme dados da Agência Sebrae de Notícias (2025). Ainda assim, essas mulheres também protagonizam um mercado em expansão. Segundo pesquisa da Black Consumers e do Instituto Locomotiva, 64% dos consumidores de produtos e serviços de MEIs são pessoas negras, e o mercado voltado a essa população movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no Brasil.

Daren começou sem saber de nada disso. Foi manicure, profissão que a colocava em contato direto com diferentes mulheres e realidades. A confeitaria entrou em sua vida como uma segunda renda, quase por desvio. Atendendo uma cliente em Curitiba, ouviu que havia demanda por alguém que ajudasse na produção de doces finos. Disse que nunca havia feito doces, mas que sabia trabalhar com biscuit, detalhes e acabamento, e que poderia tentar. “Eu falei: eu sei fazer isso. Posso te mostrar como faço e, se der certo na massa, posso trabalhar com você.” Entrou para ajudar sob demanda e acabou se tornando funcionária fixa. Aprendeu na prática, no ritmo da produção, no volume das encomendas, no improviso das cozinhas. Quando percebeu, já fazia de tudo um pouco: massa, recheio e acabamento — um trabalho técnico, mas sem reconhecimento formal ou estabilidade.
A pandemia interrompeu esse ciclo. O movimento das festas parou, a produção diminuiu e o salário encolheu. Ainda empregada, Daren já não conseguia sustentar a casa com aquela renda. “Eu fui a única funcionária que ficou. Mas o dinheiro não dava.” Foi então que, mais uma vez, movida pela necessidade de garantir a própria sobrevivência e a das duas filhas, decidiu tentar empreender sozinha. No início, trabalhou com o que tinha à disposição. Aproveitava a sobra de claras da confeitaria onde ainda atuava para produzir suspiros e vender. “Eu fazia com o que sobrava. Era o que dava naquele momento.” O retorno, no entanto, era limitado. O produto já era conhecido, não se diferenciava e não garantia renda suficiente. Ficava evidente que, para seguir, seria preciso ir além. Não bastava reproduzir. Era preciso criar.
Foi nesse contexto, entre a urgência financeira e o cansaço de tentar fazer dar certo, que uma lembrança antiga voltou com força. “Quando eu me mudei pra Curitiba, eu já tava recomeçando minha vida. E teve uma coisa que ficou na minha cabeça…” A memória vinha de antes. De outro recomeço. Sua filha, ainda pequena, viu bolachas decoradas com meninas, mas nenhuma se parecia com ela. Todos os rostos tinham pele branca, cabelos loiros e lisos. “Ela queria uma bonequinha parecida com ela. E não tinha. Eu tive que dar outra coisa.” A ausência, naquele momento, foi resolvida com adaptação, mas não desapareceu. Anos depois, ela voltaria como direção.
Foi dessa cena que nasceu a ideia. Daren passou a procurar, na internet, referências de confeitaria com desenhos de pessoas negras. Encontrou muito pouco. Até chegar a um vídeo, em inglês, de uma mulher ensinando a confeitar rostos negros, com seus traços, seus tons de pele e seus cabelos. “Eu vi o trabalho dela e pensei: é isso que eu quero fazer. Eu não entendia o idioma, não tinha acesso aos cursos, não conhecia a técnica. Mas fui dando um jeito. Eu ficava olhando a mão dela, tentando entender como ela fazia.” A partir dali, começou a testar. Os primeiros afro-cookies não vieram prontos. Vieram da repetição, do erro e da insistência. “Eu fiz a primeira vez e não ficou bom. Fiz de novo. E fui tentando até dar certo.” O processo era lento e exigente. O glacê não obedecia facilmente, e o maior desafio estava justamente no detalhe que mais importava. “Fazer o cachinho é difícil. Não é só desenhar. Tem que acertar o ponto. Senão, ele não segura.”
Sem estrutura, improvisou o que tinha. A primeira bancada foi a própria cama. “Eu não tinha mesa. Eu limpei o colchão, passei álcool, coloquei um lençol branco e trabalhei ali.” As bolachas secavam sobre o colchão enquanto ela organizava a produção como podia. À noite, ela dormia no chão para manter o espaço funcionando. As filhas acompanhavam tudo, ajudando na embalagem e na organização. “Uma embalava, a outra colocava etiqueta.” Foi só depois das primeiras vendas que veio a primeira mesa. Um objeto simples, mas que marcava uma mudança concreta de condição. “Quando eu comprei a primeira mesa, foi uma alegria.” Com ela, a produção ganhou mais ritmo e estabilidade, mas o que sustentou o negócio desde o início foi a rua.
A primeira vez que levou as bolachas para vender foi também a primeira validação. As pessoas paravam, olhavam, comentavam. “As pessoas falavam que tinham dó de comer.” A frase, repetida em diferentes espaços, revelava mais do que estética. Revelava identificação. “Meus antepassados comeram resto. Eu não quero mais isso.” Foi na Feira Afro da Zumbi, em Curitiba, que esse reconhecimento começou a se consolidar. A partir dali, Daren passou a ser chamada para outras feiras, ampliando sua circulação e fortalecendo o contato direto com o público. A barraca deixou de ser apenas uma tentativa e passou a ser uma base. As vendas se repetiam, o público voltava, o produto se aprimorava. “Eu fui aprendendo ali, na prática.”
Com o tempo, o trabalho começou a ultrapassar os limites da feira. As bolachas passaram a circular em outros estados, levadas por clientes e encomendas. Daren também começou a produzir para artistas e referências da cultura negra, como Rincon Sapiência e Janine Mathias, ampliando o alcance simbólico de seu trabalho. Ao mesmo tempo, passou a testar novos formatos, como os jogos de bolacha, criando outras possibilidades de interação e consumo.
O crescimento foi gradual, construído no cotidiano, entre erros, ajustes e pequenas conquistas. Até chegar a um momento que ela jamais imaginou. Em 2023, foi selecionada para a ExpoFavela, ficando entre os dez melhores negócios do Paraná. “Quando eu vi que tinha sido selecionada, eu nem acreditei.” A participação marcou uma virada. Pela primeira vez, seu trabalho ganhou visibilidade para além das feiras locais. “Eu nunca vendi tanto na minha vida quanto lá.” O que começou no improviso, em cima de um colchão, se transformava em um negócio reconhecido, que hoje atravessa territórios e constrói conexões.
Daren ainda fala do futuro como quem segue em movimento. O sonho não é apenas crescer, mas consolidar a Daren Ferreira Bolachas como referência, ampliar a produção e transformar sua trajetória em um caminho para outras mulheres. Entre os próximos passos está o desejo de dar aulas para meninas de favelas, ensinando a produção de doces finos como forma de promover bem-estar, autonomia financeira e novas possibilidades de vida.









