Mara Luiza segurando o cardapio da Sabores Divinos

No extremo sul de São Paulo, no bairro do Grajaú, uma história de afeto, resistência e empreendedorismo ganhou forma entre as barracas das feiras livres. Em 2016, Mara Luiza e sua filha Bárbara decidiram transformar o talento na cozinha em fonte de renda e deram início ao Sabores Divinos.

Da feira de rua aos grandes eventos

O que começou de maneira simples, com produção caseira e vendas de marmitas em feiras, cresceu e se consolidou como um negócio local, símbolo da força do empreendedorismo feminino nas periferias.

“Não tínhamos panela, fogão ou espaço físico; era tudo na rua. Mesmo assim, eu sabia que precisava entregar excelência”, relembra Mara.
Entre as dificuldades com estrutura e os cuidados redobrados com a higiene dos alimentos, o cenário era desafiador. Ainda assim, havia uma convicção clara desde o primeiro dia: entregar pratos afetivos, independentemente das condições. Foi essa decisão que definiu o caminho do negócio. Mesmo no improviso, a qualidade nunca foi negociável.

A cozinha, para Mara, sempre foi mais do que um lugar de preparo. É memória viva. Vinda de uma família grande, foi no quintal de casa, no BNH do Grajaú, que ela aprendeu que cozinhar também é reunir, conversar e construir vínculos. A pia era palco; a mesa, espaço de decisões. E, mesmo sem ter convivido com a avó, falecida quando Mara ainda era bebê, ela carrega a sensação de ter herdado um legado invisível: a colher de pau, símbolo de uma tradição que escolheu continuar.

Esse legado floresceu. O que começou nas feiras de rua ganhou raízes mais firmes e, hoje, a Sabores Divinos ocupa um espaço físico próprio, reconhecido e frequentado pelos moradores do bairro. É o caso da feijoada, hoje carro-chefe da Sabores Divinos, que não é apenas uma receita — é um manifesto. “É uma comida de uma panela só, que não precisa de mistura”, define Mara. Um preparo que reúne sabores, histórias e simplicidade em um único prato. Uma comida que abraça.

Com o tempo, o que era sobrevivência se tornou estrutura. Em meio a dificuldades financeiras, a Sabores Divinos passou a assumir um papel central na renda familiar. Ao lado da filha Bárbara e do marido, Mara viu o negócio crescer, conquistar clientes e abrir novos caminhos. A excelência plantada no início começou a dar retorno — primeiro tímido, depois consistente.

Um desses caminhos foi o catering. O convite veio por meio de uma cliente que enxergou o potencial do trabalho de Mara para além da periferia. De repente, o que nasceu no Grajaú ganhou o mundo. “Eventos, viagens e experiências em grandes espaços passaram a fazer parte da Sabores Divinos”, destaca Mara.

Para ela, é mais do que uma conquista individual; isso reafirma uma ideia poderosa: a periferia é, sim, lugar de excelência.
Hoje, aos 59 anos, Mara segue expandindo horizontes, com contratos e parcerias que levam sua cozinha a novos públicos. Mas há um desejo que pulsa com força: ser reconhecida também dentro do próprio território. “Fazer com que todo o território do Grajaú consuma o Grajaú. Que as pessoas enxerguem o valor do que é produzido aqui, sem a necessidade de buscar fora”, ressalta.

Essa visão vai além do próprio negócio. Trata-se de fortalecer uma economia local, onde o dinheiro circula dentro da comunidade e gera impacto direto na vida de quem vive ali. Mara, que antes buscava produtos em outros lugares, hoje faz questão de consumir tudo dentro do bairro, das hortaliças ao mercadinho. É uma escolha política, econômica e afetiva.

Para o futuro, os sonhos não param. Entre eles, levar a Sabores Divinos para outras periferias do Brasil, como as de Salvador, cidade pela qual tem grande carinho. A ideia é simples e potente: juntar panelas, histórias e pessoas de diferentes territórios para criar algo coletivo. Algo que, como ela mesma acredita, só pode resultar em coisa boa.

Mais do que um negócio, a Sabores Divinos é um símbolo de continuidade de histórias que atravessam gerações, de mãos que cozinham e sustentam, de uma periferia que cria, resiste e, acima de tudo, transforma.