
O que começou com corridas de táxi e conversas com turistas virou um negócio de impacto nascido dentro da Rocinha. À frente da TxWellTour, Wellington e Fernanda transformaram vivências do território em empreendedorismo comunitário e vêm mostrando, na prática, como a favela também produz inovação, memória e experiências.
A história da empresa começou em São Conrado, quando Wellington trabalhava como taxista no Hotel Nacional. Conduzindo visitantes aos principais cartões-postais do Rio, ele percebeu que já exercia, de certa forma, o papel de guia. Faltava profissionalizar o talento. “Todo taxista que faz um bom trabalho já é um pouco guia da sua cidade”, resume.
A diferença, segundo ele, era que queria ir além de deixar passageiros nos destinos e esperá-los do lado de fora.
Em 2019, incentivado por colegas, fez o curso de guia de turismo e passou a agregar novas camadas ao serviço: não apenas levar turistas aos destinos, mas acompanhá-los, contextualizar histórias e criar experiências. Nasceu ali a semente do que hoje é a TxWellTour — nome que carrega a própria origem do negócio: “Tx”, de táxi; “Well”, de Wellington; e “Tour”, dos passeios.
A virada veio em 2020. Embora a pandemia tenha paralisado o setor, o fim das restrições impulsionou um novo comportamento no turismo. Para Fernanda, as pessoas passaram a buscar experiências mais significativas. “Quando as medidas restritivas começaram a cair, o turismo nacional deu um boom. Acho que as pessoas passaram a querer viver experiências, sentir a vida. A pandemia mostrou como tudo pode mudar de repente”, lembra Fernanda. Foi também nesse momento que Wellington incorporou outra paixão ao negócio: a fotografia. O diferencial passou a incluir não só roteiros personalizados, mas registros afetivos das viagens.
Enquanto o turismo convencional vendia cartões-postais, Wellington enxergava um patrimônio vivo muito mais perto de casa. Cria da Rocinha, ele carregava um incômodo recorrente ao ouvir turistas reproduzirem estereótipos sobre o território. Diante de comentários que reduziam o território à violência e à precariedade, respondia com um convite: conhecer a favela por quem nasceu nela. “Alguns clientes do táxi falavam da Rocinha como se só tivesse miséria, sujeira e bandido. Eu fazia questão de dizer: eu sou de lá. E convidava para conhecer a comunidade com um cria.” Essa inquietação se transformou em proposta de negócio.

Hoje, cerca de 40% do público que procura a TxWellTour quer conhecer a Rocinha. Mais do que visitas guiadas, os roteiros propõem outra narrativa sobre a favela — uma construída por quem vive o território. O interesse dos visitantes, contam, vai além da curiosidade turística. Muitos querem entender como aquela cidade vertical funciona, como as dinâmicas sociais se organizam e como um território frequentemente criminalizado abriga potência econômica, cultura e inovação. “Nosso foco é mostrar o potencial da Rocinha”, explicam. “A gente não tenta esconder as mazelas, porque elas existem.”
As redes sociais ajudaram a ampliar esse alcance. A página, que inicialmente se chamava TXwelltrip, cresceu organicamente, impulsionada pela produção de fotos, vídeos e pelo alcance gerado por influenciadores atendidos pelo casal. O digital virou vitrine para um trabalho enraizado no território.
Mas a empresa ganhou novo fôlego com a chegada de Fernanda. Depois de duas décadas no varejo — 14 anos em cargos de gestão — ela começou nos bastidores. “Eu comecei ajudando na organização da empresa. Quando a demanda cresceu, Wellington me chamou para empreender com ele. No início eu resisti”, conta. Inicialmente relutante, aceitou o desafio e, em 2021, concluiu o curso de guia de turismo. O que começou no apoio operacional virou sociedade. “Foi Wellington quem me mostrou uma visão que eu mesma não enxergava em mim”, conta. A parceria fortaleceu a profissionalização do negócio e marcou também a formalização da TxWellTour como empresa.
Hoje, o empreendimento é familiar. Dudu, filho mais velho do casal, também integra o time e atua nos roteiros em inglês, ampliando o diálogo com visitantes estrangeiros.
A empresa cresceu, mas manteve o propósito. Para Wellington e Fernanda, o turismo comunitário não é apenas fonte de renda — é ferramenta de disputa de narrativa. Ao transformar pertencimento em negócio, eles ajudam a reposicionar a Rocinha não como cenário, mas como protagonista.
E, ao transformar isso em empreendimento, mostram um princípio caro às periferias brasileiras: soluções potentes muitas vezes nascem exatamente de onde o mercado costuma não olhar. Na TxWellTour, o turismo é caminho, mas também é afirmação. Uma rota em que a favela deixa de ser vista como problema e passa a ser reconhecida como destino, potência e futuro.









