
Gerenciar um negócio dentro de uma favela significa encarar preconceitos. É o caso do Manga Bar, localizado na Favela da Mangueira, na Zona Norte do Rio. O negócio, criado por Michael Soares, de 36 anos, surgiu no início de 2025 e bombou! Próximo à quadra da Mangueira, o bar verde-rosa se tornou sucesso, com vários turistas de outros lugares do Rio, do Brasil e do mundo frequentando o Manga Bar.
Mas quem vê o sucesso de hoje em dia não imagina que Michael teve de superar obstáculos desde antes de começar. Ele foi lutador de taekwondo dos 9 aos 25 anos, defendendo a seleção brasileira e competindo em campeonatos mundiais. “Tive a oportunidade de conhecer 41 países representando o Brasil”, conta.
Porém, um golpe da vida fez com que ele mudasse de área. Em 2011, Michael vivia o melhor momento de sua carreira, quando chegou ao 16º lugar no ranking mundial, mas as lesões acabaram fazendo com que o então atleta parasse de lutar: “Rompi o ligamento colateral medial do joelho direito e fiquei três meses afastado. Na volta, rompi o do esquerdo, e depois o cruzado total. Foi então que percebi que meu corpo começava a dar sinais de limite”.
Com a saída da luta, Michael passou a se interessar por outra área: a cultura. Com a ajuda do amigo e também atleta de taekwondo Diogo Silva — medalhista mundial e pan-americano na modalidade —, percebeu que poderia unir duas paixões: o esporte e o impacto social.
A partir daí, começou a empreender e produzir eventos, até que foi chamado para a Olimpíada Rio-2016. “Fui convidado para atuar na produção dos Jogos Olímpicos. Com minha experiência como ex-atleta e produtor de eventos, assumi a função de Gerente de Esportes e Eventos. E foi ali que aconteceu a grande virada de chave na minha vida”, conta.
Em 2017, nasceu a ideia do Manga Bar, mas só em 2025 ela saiu do papel: “A gente nunca deixou de procurar o espaço ideal. Cheguei quase a alugar outras lojas, mas as coisas simplesmente não fluíam. Até que, um dia, vimos uma placa de ‘aluga-se’, ligamos, e o processo começou a andar. Mesmo assim, ainda demorou mais alguns meses até dar certo, quando o antigo locatário desistiu do ponto”.
Religioso, Michael diz que sua mãe de santo o orientou a pintar todo o local, transformando-o no que é hoje. Ele pintou por conta própria, com a ajuda da namorada e de um familiar. Sem experiência com pintura, comprou uma pistola de tinta e aprendeu vendo tutoriais no YouTube. “Anotava as misturas, as pigmentações, as cores e tudo de forma experimental. Minha namorada e meu primo vieram ajudar, e passamos 14 dias seguidos pintando cada detalhe do espaço. Foi um processo intenso, cansativo, mas cheio de significado”, ressalta.
Antes de empreender com o Manga Bar, Michael teve outros negócios e oportunidade de estudar fora do país, mas sempre quis construir algo dentro do Brasil. “A Universidade de Chicago chegou a oferecer uma bolsa de estudos, e outras propostas apareceram, até em Portugal. Mas eu sempre quis ficar no Brasil. Meu sonho era construir algo aqui, no meu país, foi isso que me fez seguir por esse caminho”, conta Michael.
Segundo ele, empreender dentro de uma favela não é simples, principalmente pelo preconceito sofrido: “As pessoas duvidam da qualidade do produto, acham que a cerveja é falsa, que o atendimento não é bom. No início, uma marca nem entregava aqui, alegando que o caminhão não podia subir o morro. E outra recusou nosso cadastro porque o endereço era dentro da comunidade”.
Diante desses empecilhos, o Manga Bar passou a buscar alternativas: “Como as grandes distribuidoras não queriam entregar, comecei a comprar direto nos depósitos da favela, pagando mais caro, mas garantindo o funcionamento do bar. Tivemos que recorrer a programas alternativos de microcrédito para conseguir comprar bebidas. Hoje, o Manga Bar é o bar que mais vende na região produtos das marcas que se recusaram a nos atender”, orgulha-se.
Para o proprietário, um dos grandes desafios para se empreender dentro da favela é o acesso ao crédito para empreender e praticar empreendedorismo, devido às questões de renda e localização: “A gente conhece a dinâmica do espaço e enfrenta muito preconceito. Tudo o que vem da favela carrega um estigma, é real. Parece que o banco pensa que, se emprestar para a gente, vai ter problema. Falta confiança nas nossas iniciativas”, detalha.
Para Michael, políticas de microcrédito voltadas especificamente às favelas são um importante apoio aos empreendedores. Ele destaca ações de bancos comunitários que, com suas próprias moedas, impulsionam o desenvolvimento local. “Isso faz o dinheiro girar ali dentro, fortalecendo o comércio local e gerando renda para quem está perto. É um modelo muito à frente do tempo, e ajuda a galera a crescer, a dar o próximo passo”, diz.
Sobre a representatividade do Manga Bar para a favela, Michael conta que, com o sucesso do empreendimento, outros negócios passaram a surgir nas proximidades, em um passo a ajudar o outro para que todos pudessem crescer. “O Manga Bar chama outro empreendedor para o local também, porque vai dando certo e atraindo gente. E esta sempre foi a nossa ideia: dividir a audiência. A gente nunca teve rivalidade com ninguém daqui, pelo contrário, é tudo compartilhado: o público, as ideias, até as mesas e cadeiras. Às vezes falta mesa aqui e a gente pega lá, às vezes falta lá e eles pegam aqui. É uma troca real”, explica.
O proprietário também se define como um “canal de possibilidades” dentro da comunidade, ou alguém que abre caminho. “Eu costumo dizer que o que a gente faz aqui é criar pontes para que outras pessoas também possam sonhar, empreender e crescer. A gente tem vontade de montar aqui dentro rodas de empreendedorismo comunitário, ensinar um pouco de marketing digital, contabilidade, gestão, o básico para fortalecer a própria comunidade. É isso: ser canal, multiplicar o que a gente aprendeu, para que mais gente possa trilhar o próprio caminho”.
Além da ajuda entre os empreendedores, a abertura de negócios como o Manga Bar ajuda na geração de empregos. Segundo Michael, dos 18 funcionários, a grande maioria é da própria Mangueira, e isso chama a atenção de outras instituições, que acabam oferecendo cursos e outras oportunidades aos colaboradores. “A gente não ajuda só dando emprego. Agora, por exemplo, todos os funcionários do Manga Bar vão poder fazer faculdade através de uma parceria que conseguimos. Isso para a gente é gigante! Eu sempre falo para eles: ‘O Manga Bar é trampolim! Aqui é base, é aprendizado, para depois voar e conquistar o mundo’”, diz.
Apesar do sucesso, para Michael, esta parte ainda não chegou. Ele afirma que enxerga mais as coisas que ainda faltam, o que precisa melhorar e o que precisa ser organizado. “Para a gente ainda não tem essa concepção de que ‘deu certo’. Pra mim, está muito longe disso: ‘dá certo’ é o que as pessoas falam, dessa glamourização, dessa glória. É difícil se desprender de algo que a gente mesmo constrói, porque é muito trabalho chegar até aqui e, mesmo assim, a gente ainda não sabe se chegou”, conta.
Apesar de não ver o sucesso ainda no Manga Bar, Michael diz que o segredo para atingir a glória é muito: ação, entrega, organização, sentimento de comunidade, união, carinho e respeito. “Aqui é um lugar onde as pessoas se sentem amadas, acolhidas. Tudo é resolvido com conversa, afeto e escuta. É isso que faz o público se sentir pertencente. O acolhimento vem desse lugar, da vida real”.
E para quem deseja empreender dentro da comunidade, seja da Mangueira, ou de outra no Brasil, Michael deixa a dica de que o estudo pode fazer com que você saia da sua zona de conforto, e comece a construir algo novo: “Para mim, empreender foi o que mudou minha vida. E vejo o mesmo acontecer com várias pessoas que tiveram essa oportunidade. Então, minha mensagem é essa: comece pequeno, mas comece. Aprenda, entenda, evolua dentro das suas possibilidades. O empreendedorismo é uma chance real de transformação. É por esse caminho que a gente cresce e muda a nossa história”.









