Entre cortes de cabelo, música e arte urbana, a barbearia Tribos reúne jovens de diferentes bairros de Curitiba e se transforma em espaço de convivência, identidade e geração de renda

No centro histórico de Curitiba, na Rua Treze de Maio, a barbearia Tribos chama a atenção de quem passa. A via, que ao longo dos anos foi ressignificada diversas vezes, reúne bares, festas, artistas de rua, trabalhadores que cruzam a região diariamente e jovens que ocupam o centro em busca de cultura e lazer.

É nesse cenário que funciona o estúdio que mistura referências da estética negra, do basquete e do hip-hop. Entre espelhos, quadros e máquinas de corte, o espaço se tornou um ponto de encontro para clientes que circulam pelo centro e também para jovens que atravessam a cidade para cortar o cabelo, conversar ou simplesmente permanecer ali.

Nos últimos anos, as barbearias deixaram de ser apenas um serviço de rotina e passaram a ocupar um novo lugar na cultura urbana brasileira. Espalhados por bairros populares e periferias das grandes cidades, esses espaços se consolidaram como pontos de encontro, geração de renda e construção de identidade masculina.

O crescimento desse mercado acompanha mudanças no comportamento dos homens brasileiros e na própria economia do setor de beleza. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, os serviços ligados à estética estão entre as atividades que mais registram abertura de pequenos negócios no país, especialmente entre microempreendedores individuais.

Dados da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos indicam que o Brasil está entre os maiores mercados globais de higiene e beleza e que o público masculino tem ampliado sua participação no setor ao longo da última década. Relatório da entidade publicado em 2023 aponta que o aumento do autocuidado masculino impulsionou a expansão de serviços especializados, como barbearias e estúdios de estética voltados ao público masculino.

O investimento inicial relativamente baixo ajuda a explicar a popularização desse tipo de empreendimento. Materiais orientativos do Sebrae sobre abertura de pequenos negócios indicam que montar uma barbearia pode exigir investimento entre R$ 5 mil e R$ 20 mil, dependendo da estrutura do espaço e dos equipamentos utilizados.

Com cortes que variam, em média, entre R$ 10 e R$ 100, o fluxo constante de clientes também contribui para a viabilidade econômica do negócio. Estimativas do setor indicam que uma barbearia pode atender entre 15 e 30 clientes por dia, dependendo do tamanho do salão e do número de profissionais trabalhando no local. Isso significa que o faturamento bruto diário pode variar entre R$ 150 e R$ 2.100, ultrapassando R$ 20 mil por mês em estabelecimentos com boa rotatividade.

Para muitos jovens, aprender a cortar cabelo tornou-se uma porta de entrada para o empreendedorismo. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que o Brasil tem cerca de 15 milhões de microempreendedores individuais (MEI), e os serviços de beleza estão entre as atividades mais registradas nesse regime.

Na Tribos, essa realidade aparece nas histórias dos próprios barbeiros.

João Vitor Andrade Carvalho, conhecido como JBlack, trabalha como barbeiro há cerca de três anos e meio. Antes de se firmar na área, passou por diferentes empregos, mas já carregava um interesse antigo pelo cuidado com a própria imagem.

“Eu sempre gostei de criar e fui aprendendo a cuidar da minha estética, da minha beleza como homem preto”, conta.
A entrada na profissão veio após um curso rápido de barbearia. No início, porém, a tentativa de atuar no ramo não se consolidou. JBlack voltou a trabalhar em outras áreas, inclusive em shoppings, até decidir retornar ao ofício.

“Eu me sentia preso. Lidava com um público de alto padrão que muitas vezes olhava para a gente como nada. Aí eu dei um basta e falei: vou voltar pelo menos para a área que eu gosto.”

A trajetória de Paulo Henrique Souza Ferreira, o Paulo The Barber, também passa por reinvenção. Antes da barbearia, ele dedicou grande parte da adolescência ao basquete. Quando parou de jogar, passou seis anos trabalhando em shoppings antes de decidir mudar de rumo.
Foi na própria profissão que ele percebeu que o trabalho ia além do corte de cabelo. A barbearia poderia ser também um espaço de convivência e fortalecimento da autoestima, especialmente para homens negros.

“Trabalhar com a autoestima de pessoas já é muito interessante. Trabalhar com a autoestima de pessoas pretas é ainda mais”, afirma.
A Tribos já existia quando Paulo chegou ao espaço. Inicialmente barbeiro do salão, ele assumiu a gestão depois da morte do antigo proprietário, também negro e vindo da periferia. A partir daí, decidiu aprofundar o projeto e posicionar o estúdio com referências mais claras da estética negra e da cultura hip-hop.

Hoje o espaço reúne barbearia, tranças, dreadlocks, tatuagem e piercing, além de eventos culturais com DJs, grafiteiros e artistas locais.
“São muito poucas barbearias que se posicionam dentro desse nicho. Em Curitiba ainda menos”, diz.

Além da estética, a Tribos abre espaço para música, rimas e encontros que fortalecem a cena cultural que circula pela barbearia

Essa proposta também aparece na relação com os clientes.

Jociel, conhecido como Shock, conheceu a Tribos durante um evento no espaço e hoje atravessa a cidade para cortar o cabelo. Morador do Caiuá, ele conta que estava procurando um barbeiro em quem confiasse para cuidar do cabelo.

“Tem essa questão também, de qualquer pessoa não poder encostar na nossa cabeça”, diz.

Desde então, o espaço se tornou um lugar que ele frequenta mesmo quando não vai cortar o cabelo.

“Às vezes eu nem vou cortar. Eu venho para trocar ideia, ficar aqui.”

Para os barbeiros, essa conexão explica por que o negócio se sustenta. Embora o Instagram ajude na divulgação, o principal caminho para novos clientes continua sendo o boca a boca.

“Um cliente indica para outro. A experiência conta muito”, explica Paulo.

Nas periferias, a expressão “estar na régua” é usada para indicar que o corte está alinhado e bem feito. Mais do que estética, o termo representa cuidado com a própria imagem e presença.

“Às vezes a pessoa está com problema, mas fala: pelo menos meu cabelo tá na régua”, diz JBlack.

Mesmo instalada no centro da cidade, a Tribos reúne clientes de diferentes bairros periféricos de Curitiba e da Região Metropolitana. Para os barbeiros, a localização acabou se tornando um ponto de encontro entre diferentes quebradas da cidade.

Mais do que um salão, o espaço funciona como lugar de convivência, troca e pertencimento, mostrando como um pequeno negócio pode gerar renda, fortalecer identidades e criar novas redes dentro da cidade.