Foto: Suzellen Nascimento

Na Ilha de Deus, território moldado por rio, maré, mangue e resistência no Recife, Geisiane de Ataíde Gomes, de 37 anos, cresceu rodeada pelos cheiros do sururu e dos mariscos que marcavam a rotina da tradicional comunidade pesqueira. Antes de ser conhecida como Chef Negralinda, a filha de mãe marisqueira e pai pescador, irmã mais velha de 11 irmãos, desde criança acompanhava o ofício que garantia o sustento da família. Foi observando a dança cuidadosa das mãos da mãe e da avó que aprendeu o processo minucioso de catar, limpar e cozinhar o molusco.

“Minha carne, minha massa sempre foi o sururu e o marisco que minha mãe pescava ali perto de casa. Os frutos do mangue sempre foram minha comida afetiva”, relembra ao falar da proteína base do seu costume alimentar.

Foi nesse ambiente de trabalho duro, saber ancestral e perseverança que se formou a essência da chef, que hoje transforma vidas por meio da gastronomia e da economia criativa sustentável. A trajetória empreendedora de Negralinda começou de forma tímida, quase por acaso. Em 2009, o empreendedor social Edy Rocha, cria do Coque, periferia do Recife, construiu com a população da Ilha de Deus a proposta de promover o turismo de base comunitária. Tratava-se de uma iniciativa para valorizar a cultura, o saber local e o trabalho da comunidade.

Antes que o turismo periférico se tornasse uma tendência nacional, Edy Rocha já caminhava pela Ilha de Deus falando de pertencimento, de território e de autonomia. Ele percebeu que a comunidade carregava uma potência invisível aos olhos de quem só via o mangue como pobreza. Foi Edy quem, em 2009, convidou Negralinda para cozinhar para os visitantes. Hoje, ele é visto como um articulador essencial da economia comunitária da região, alguém que uniu moradores, turistas, instituições e lideranças para mostrar ao Brasil que o mangue também é lugar de inovação.

O Bistrô Negralinda, que surgiu alguns anos depois na Ilha de Deus, é também fruto desse olhar. Mais do que um espaço gastronômico, a casa se tornou porta de entrada para uma experiência completa.

“Ali, moradores e visitantes caminham pelo mangue, conhecem de perto o trabalho das marisqueiras, acompanham o processo da pesca e veem o alimento ganhar forma até chegar ao prato.”

O tempero original, herdado das gerações de mulheres que vieram antes de Negralinda, rapidamente conquistou quem passava pela Ilha. No entanto, ela não se conformava com a desvalorização do trabalho desgastante e precarizado de marisqueiras, pescadores e cozinheiras.

“Não queria que as pessoas viessem apenas comer e ir embora. Queria que entendessem o processo e o impacto daquele trabalho, para saber que quem dá o preço somos nós”, afirma ela, revelando que a proposta surtiu efeito. “Com frequência escuto os visitantes dizendo que nunca mais dirão que é caro, que agora conhecem todo o trabalho até a comida chegar ao prato. Toda essa percepção se converteu em algo maior, autoestima! Para as mulheres do mangue, essa mudança de olhar significa finalmente reconhecer o valor do próprio esforço, algo que historicamente lhes foi negado”.

Mesmo reconhecida pelo talento, Negralinda enfrentou barreiras que recaem, sobretudo, sobre empreendedores periféricos, em sua maioria mulheres negras: a desvalorização, o preconceito e a cobrança por títulos formais. Determinada a não permitir que o racismo impedisse seu crescimento, ela voltou para a sala de aula, concluiu o ensino médio e conquistou uma bolsa para cursar Gastronomia.

“Estar na faculdade foi importante para aprimorar meus conhecimentos e principalmente pela aceitação do público e dos contratantes. Antes eu era convidada para eventos e, quando recebia algo, era uma ajuda de custo para transporte e lanche. Hoje tenho autoridade para cobrar o preço justo pelo meu trabalho. É isso que quero para outras mulheres”.

Em 2020, quando o mundo parou por conta da Covid-19, o turismo, pilar do bistrô, também parou. E, com ele, a renda daquela população que dependia do movimento na Ilha. Foi nesse momento de urgência que um sonho antigo finalmente saiu do papel: nasceu o Instituto Negralinda, criado para acolher mulheres marisqueiras e pescadoras, chefes de família que lutavam por sobrevivência e dignidade.

Foto: Suzellen Nascimento

Há três anos, com sede física na cidade de Tamandaré, o instituto se tornou um espaço de afeto, formação e autonomia a partir do compartilhamento de saberes ancestrais, culturais e comunitários. Desse movimento surgiram projetos voltados para qualificação profissional, responsabilidade ambiental e compromisso socioeconômico através da realização de oficinas, palestras e cursos. Uma rede de apoio que hoje alcança o todo litoral pernambucano, impactando centenas de mulheres — e por mulheres dizemos famílias completas e suas comunidades.

Ladjane Maria de Santana, de 60 anos, é uma delas. A marisqueira participa das atividades do curso Gastronomia do Mangue ao lado das quatro filhas. Uma cena que traduz o ciclo completo: mulheres ensinando mulheres, mães abrindo caminhos para filhas.

“Está sendo muito importante fazer as aulas, porque a gente já conhece o mangue, o aratu, o sururu, a tainha… Mas as técnicas para beneficiar, cozinhar e servir a gente está aprendendo aqui. E isso vai nos ajudar a fazer um trabalho melhor, para poder cobrar o preço que realmente vale”, explica.

Quando Ladjane fala em beneficiamento dos mariscos, ela se refere ao trabalho que envolve limpeza, separação e processamento do molusco após a colheita, visando agregar valor ao produto.

“Essa também sempre foi minha preocupação, agregar valor aos frutos do mangue. Primeiro, comecei a separar o que é do mar e o que é do mangue, depois passei a mostrar que com o beneficiamento a gente consegue revelar a riqueza do produto, conquistar a admiração de quem aprecia e converter isso em ganhos para quem produz, garantindo um selo de qualidade para os frutos do mangue”, afirma Negralinda.

Em um país onde o empreendedorismo periférico ainda é marginalizado e subestimado, a chef prova que talento, perseverança e coletividade são poderosos motores de mudança. Atualmente o instituto tem quatro projetos em atividade: Marisqueiras Empreendedoras Colaborativas, rede de apoio que reúne marisqueiras para fortalecer renda, autoestima e empreendedorismo por meio de formações práticas e vivências; Elas Protagonistas, programa que desenvolve liderança, autonomia financeira e valorização pessoal de mulheres chefes de família, preparando-as para gerir seus próprios negócios; Rotas dos Corais, experiência de turismo comunitário que apresenta o mangue, o trabalho das marisqueiras e a cultura local, gerando renda e valorizando o território; e Oxé, Pernambuco Tem Mariscada Sim, projeto gastronômico-cultural que celebra a culinária do litoral do estado e dá visibilidade ao trabalho das marisqueiras. A iniciativa promove eventos, oficinas e vivências para mostrar a diversidade e a riqueza dos pratos à base de frutos do mangue, reforçando a identidade local e combatendo a desvalorização histórica desse alimento.

O instituto conta com uma rede de 15 instituições parceiras, já atendeu diretamente quase 2 mil pessoas e impactou mais de 7 mil em dez municípios pernambucanos. Do mangue ao prato, da Ilha ao mundo, a trajetória de Negralinda mostra que empreender é também um ato político: é reivindicar direitos, espaços e identidade. E, sobretudo, lembrar que saberes, quando carregam raízes, têm força para transformar vidas.