No cenário pulsante do empreendedorismo periférico em Pernambuco, a história de Michelle Nascimento, 37 anos, é mais do que um caso de sucesso: é um retrato de resistência, estratégia e reinvenção. Fundadora da Dois Tons Gelateria Artesanal, com unidades em Recife e Olinda, ela construiu uma marca que carrega, em cada detalhe, a força de quem precisou transformar obstáculos em oportunidade.
Criada na periferia de Jaboatão Velho, centro de Jaboatão dos Guararapes, Michelle cresceu cercada por desafios comuns a tantas mulheres brasileiras: acesso limitado a recursos, necessidade de trabalhar desde cedo e a urgência de contribuir com a renda familiar. Foi nesse ambiente que desenvolveu não apenas o senso de responsabilidade, mas também a criatividade e a determinação que mais tarde se tornaram pilares do seu negócio.
A gelateria nasceu de uma paixão: “Tenho uma prima que mora na Itália e em 2016, ela proporcionou minha primeira viagem internacional. Lá nasceu a paixão pelo gelato. De volta ao Brasil, consegui fazer um curso com um mestre italiano, aprendi tudo que podia sobre o assunto e, no ano seguinte, minha prima me proporcionou a viagem novamente, e dessa vez fui focada em conhecer ainda mais o gelato italiano”, explica.
Mas não demorou para que percebesse que era preciso ir além do talento. O “estalo” empreendedor veio quando ela entendeu que poderia transformar o fazer artesanal em uma empresa estruturada, com identidade própria e potencial de crescimento. Ainda assim, o caminho esteve longe de ser simples.
Empreender como mulher negra e periférica significou lidar com múltiplas barreiras: da dificuldade de acesso a crédito à desconfiança do mercado, passando pelos desafios de gestão em um setor altamente competitivo como o de alimentos. “Não é só sobre ter um bom produto, é sobre aprender a gerir, liderar e se posicionar”, resume a trajetória que exigiu dela constante adaptação.
“Antes de abrir a Dois Tons, tive um restaurante de sushi em Jaboatão. Reconheço que o restaurante faliu por falta de experiência minha. Então decidi que se eu fosse empreender novamente, precisaria estudar mais e entender sobre todos os setores de uma empresa”, pontua.
Foi nesse processo que o apoio institucional fez diferença. A partir do contato com iniciativas de fortalecimento do empreendedorismo feminino, Michelle passou a aprender e incorporar ferramentas de gestão estratégica, liderança e planejamento ao seu sonho.
“Sempre fui muito curiosa para estudar sobre vendas e negócios em si. Comecei a fazer cursos promovidos pelo Sebrae-PE e depois me dediquei a montar o plano de negócio desse novo empreendimento”, afirma. O resultado foi a construção de uma base importante na profissionalização da Dois Tons, refletida desde a inauguração da primeira loja.
Em paralelo ao caminho de qualificação e aprendizado, Michelle focou também em economizar todo o dinheiro que podia desde 2017, quando fez o primeiro curso, porque estava determinada a empreender na área. Durante a pandemia, quando uma gelateria de Minas Gerais estava em processo de fechamento, ela viu a oportunidade de comprar o maquinário por um valor mais acessível — e aproveitou a oportunidade.
Em 2020, mesmo considerando o passo ousado, Michelle, com o apoio do esposo André Ormonde, alugou na Praça de Casa Forte, área privilegiada na zona norte do Recife, a casa que abrigaria a primeira loja da Dois Tons Gelateria Artesanal. Entre reformas, perrengues e resiliência, em março de 2021, a primeira unidade foi inaugurada, o pontapé inicial para a consolidação e expansão de uma marca que, além da qualidade do produto, foca na excelência do atendimento e no reconhecimento público.
Poucos meses após a inauguração, a empreendedora passou a contar também com o apoio do irmão Jackson, parceria que segue até hoje. Ainda em 2021, Michelle realizou a formatação de franquia do Sebrae-PE, mas decidiu não seguir como franquia no momento. Em 2022, abriu um quiosque no shopping Patteo Olinda. Dois anos depois, abriu uma loja no shopping RioMar, no bairro do Pina, zona sul do Recife, e recentemente inaugurou uma unidade no bairro do Espinheiro, a segunda na zona norte do Recife.
“Começamos a Dois Tons com 3 funcionários, hoje já somos cerca de 40. Estamos trilhando um caminho de muito trabalho, mas seguindo nosso propósito de fazer a diferença na vida das pessoas. Tenho muito orgulho do nosso time”, comemora.
Um dos marcos dessa caminhada foi a conquista do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, em 2025 — reconhecimento que projetou sua história para além do estado e consolidou sua posição como referência. Mais do que um troféu, o reconhecimento simboliza a validação de uma trajetória construída com esforço contínuo e visão de futuro.
Hoje, à frente de uma marca em crescimento, a empresária também se torna inspiração para outras mulheres de territórios periféricos que desejam empreender. Sua participação em rodas de conversa e iniciativas de troca de experiências reforça o compromisso em compartilhar aprendizados e fortalecer redes.
Em um estado em que cerca de 300 mil mulheres estão à frente de pequenos negócios, histórias como a de Michelle evidenciam o potencial transformador do empreendedorismo feminino quando aliado a políticas de apoio e acesso a conhecimento.
“Gosto de pensar que quando uma mulher decide empreender ela abre mão de muita coisa, eu, por exemplo, adiei a maternidade, não pude participar da vida das pessoas que eu amava, perdi muitos momentos em família, porque eu estava muito ocupada trabalhando… Mas acho que tudo é fase e temos que ter foco no principal que é o resultado. Depois as coisas se organizam, a empresa vai crescendo e você vai ficando com mais liberdade. Então, sempre oriento mulheres a entenderem e aceitarem o processo com tranquilidade, com foco no objetivo final. E claro, estudem antes de empreender. A emoção de abrir seu próprio negócio é muito massa, mas estar minimamente preparada para empreender faz muita diferença”, finaliza.
A Dois Tons Gelateria Artesanal é, mais do que um empreendimento, a materialização de um percurso que começa no sonho de uma pessoa com vivências periféricas, atravessa desafios estruturais e chega ao mercado com consistência e propósito. Uma trajetória que mostra que, com estratégia e oportunidade, é possível transformar a origem em potência — e fazer dela o principal ingrediente do sucesso.










