Na Zona Oeste de Curitiba, a Cidade Industrial de Curitiba (CIC) reúne mais de 172 mil habitantes, cerca de 10% da capital. Criado como bairro das fábricas, o território hoje tem população maior do que a maioria dos municípios do Paraná e, ainda assim, segue marcado por estigmas. É desse lugar que surgem Mano Cappu (Rodrigo Pinheiro) e Betinho Celanex (Carlos Alberto Moura), rappers, roteiristas e produtores que criaram a CW Black, produtora audiovisual periférica que cruza festivais no Brasil e no exterior.
“Viver de arte na Cidade Industrial parece um ato de resistência”, diz Cappu. “A gente nasceu em um território que te condiciona à mão de obra barata. Escolhemos outro caminho”, complementa Celanex.
Mano Cappu chegou ao CIC vindo de Colombo por volta dos 11 anos. O apelido nasceu da capoeira, virou Cappu pelas meninas da rua. Já Mano veio com o hip-hop: “Comecei rimando sem saber métrica. Fui aprendendo na vivência com os parceiros do bairro”.
Betinho é da Vila Sabará. O primeiro impacto aconteceu enquanto ouvia Racionais MC’s nos anos 1990. Quando descobriu o grupo local JAC, Juventude Ativa do CIC, virou fã, colou em show, em gravação improvisada, até ser chamado para dentro. Enquanto isso, Cappu crescia nas batalhas de rima da região. Logo entenderam que, para existir além das ruas, o rap do CIC precisava aparecer.
“Se você era da periferia e queria existir online, precisava de clipe. Precisava de imagem, mas ninguém ia vir aqui filmar a gente”, diz Betinho, lembrando que a virada veio com o YouTube: “A gente começou a notar que não dava mais para lançar música sem vídeo”.
Mas faltava tudo. Foi aí que os caminhos se reencontraram: Cappu, recém-saído do cárcere, com algumas rimas prontas; Betinho com disco novo do JAC e nenhum equipamento. A primeira grande decisão veio com Betinho, então operário de fábrica:
“Saí da empresa, pedi demissão. Com o acerto, comprei uma câmera. Olhei para ela e pensei: ‘E agora?’. Nem sabia ligar. Mas eu morava com minha mãe, tinha teto e comida. Esse foi meu privilégio, pude arriscar”, conta.
Com a câmera, começaram com o que havia: luz emprestada, microfone improvisado, cabos cedidos e o quintal da Sabará como cenário. Betinho filmava, Cappu editava.
“Cada trampo ensinava alguma coisa. O jeito era aprender fazendo”, diz Cappu.
Enquanto Betinho crescia na produção, Cappu tentava equilibrar sobrevivência e criação. Egresso do sistema prisional, enfrentou vários “nãos” até conseguir emprego como porteiro. Estudava audiovisual nas horas vagas, até que um clipe dirigido pelos dois foi selecionado para um festival, e ele recebeu um convite para ir à premiação. O chefe barrou.
Foi o limite. Cappu pediu demissão e decidiu olhar para a própria história com a seriedade que ela exigia. Voltou a escrever. Em conversa com a diretora e amiga Isa Lanave, ouviu a provocação: por que deixar outras pessoas darem voz ao mundo com a história dele, se ele mesmo podia escrevê-la? A partir dali, mergulhou em oficinas, laboratórios e cursos até ser selecionado para o Programa de Aceleração Audiovisual (PAN).
A noção do tamanho do audiovisual veio com as filmagens de “Nóis por nóis”, longa de Aly Muritiba e Jandir Santin, rodado dentro do CIC. Eles já acompanhavam a escrita e foram chamados para a equipe.
“A gente filmava com luz emprestada. De repente tinha caminhão, equipamento. E nos surpreendemos que existia tudo aquilo…”, admite Betinho.
Esse impacto bateu com outra dimensão: o audiovisual, no Brasil, é cultura e também economia. No CIC, isso aparece na marmita comprada no comércio local, no motorista da rua, na costureira do bairro fazendo figurino, na casa que vira locação e recebe aluguel, em quem nunca tinha visto um set ganhando seu primeiro cachê.
A produtora nasceu antes do CNPJ. Eles já filmavam, mas não queriam assinar clipes com os próprios nomes. O nome da empresa veio de uma música de Cappu: “CW Black”. Primeiro, começaram a assinar no fim dos vídeos; depois, marca; até virar de fato uma produtora.
A profissionalização começou quando decidiram disputar editais. Nenhum dos dois sabia escrever projeto. Aprenderam lendo edital até o fim, perguntando, vendo vídeo de orçamento e justificativa.
“Era tudo no YouTube e na cara dura”, lembra Cappu.
O primeiro passo foi o documentário dos 15 anos do JAC. Depois vieram “Trilha” e a certeza de que havia demanda real pelas histórias que queriam contar. Com os editais, tomaram uma decisão: dinheiro público tem que voltar para o bairro, contratando moradores, fortalecendo o comércio, fazendo os recursos circularem pelo CIC.
“Cinema é trabalho, gera renda, move a quebrada. Quando entra edital, entra caminhão no bairro, entra equipe, entra marmita, motorista, costureira… Isso movimenta a economia aqui dentro”, ressalta Cappu.
A virada criativa veio com a trilogia do “Cárcere”, que coloca na tela não só a trajetória de Mano Cappu, mas a de tantas famílias do CIC atravessadas pelo sistema prisional. Os roteiros, escritos por ele, rodaram festivais, chamaram a atenção de roteiristas no país inteiro e abriram portas até então distantes: desenvolver série com a Netflix, fazer sala de roteiro para projeto da HBO e participar de “Cárcere para o Futuro”, com verba em dólar da National Geographic, além de prêmios no Brasil e na França.
Hoje, a CW Black mantém vários projetos em filmagem, pós e desenvolvimento. “Fora do eixo”, série sobre o rap paranaense, rodou com uma equipe de mais de 30 pessoas, todas pagas. Ao mesmo tempo, a produtora virou escola: são oferecidas oficinas gratuitas de roteiro, câmera, rap e produção cultural.
“Daqui a cinco anos, me vejo com esse quintal cheio. Um polo de cinema preto e periférico”, projeta Cappu.
A pergunta que orienta tudo o que cerca a dupla é simples: quantos Cappu e Betinho podem existir se alguém abrir uma porta? Foi nesse espírito que lançaram a hashtag #DoCICproMundo. No começo, veio o medo.
“A gente pensou: será que pode falar isso se a gente mal saiu daqui?”, lembra Cappu.
Mas o mundo respondeu. Vieram festivais, prêmios, parcerias, laboratórios, convites que atravessam fronteiras. E, cada vez que um filme circula, o bairro sente. Um trabalhador contou a Cappu que foi para o serviço mais feliz depois de ver a CW Black premiada lá fora, como se a vitória fosse de todo mundo.
Para eles, o CIC é um formigueiro de gente trabalhadora e criativa, que sempre existiu longe das câmeras. A CW Black só fez o necessário: apontar a lente para onde ninguém apontava e levar todo mundo que quisesse ir junto. Do CIC para o mundo. E sempre de volta para o CIC.










