Do ateliê do estilista soteropolitano Rey Vilas Boas, de 38 anos, saem os figurinos que conquistaram as passarelas da Bahia. Morador do bairro de Narandiba, em Salvador, ele se destaca pelas criações de modelitos com foco no reaproveitamento têxtil. A cada retalho, ele reconstrói não somente uma nova peça, mas também a própria carreira.
Neto de costureira, Rey aprendeu desde cedo que a reutilização de resíduos seria essencial para a profissão que desejava seguir. Foi com Dona Antônia Chagas que aprendeu a pensar sobre a moda de uma maneira diferente.
“A moda sempre esteve comigo desde pequeno. Minha avó costurava e eu acompanhava todo aquele processo. Ficava fascinado de ver as pessoas entrando lá com um tecido e, depois de três dias, saindo com uma peça linda. Minha avó não queria me ensinar porque, na cabeça dela, aquilo não era para mim. Ainda assim, persisti”.
Apesar da relutância de Dona Antônia, Rey insistiu e encontrou na moda sustentável seu caminho. O nicho que mais se identificou foi com a moda sustentável, que consiste no reaproveitamento de resíduos como sobras de tecidos, pedrarias e peças para desmanche, além de outros itens.
“Como trabalho com sustentabilidade, tenho uma fonte de inspiração inesgotável. Com as peças que recebo, faço as modelagens no ateliê. Então costuro um novo tecido com aqueles pedaços, para a partir daí surgir uma nova peça. Tenho uma fonte inesgotável de inspiração, porque o tecido diz pra mim o que ele quer ser”, explica.
Dentre as técnicas artesanais nos trabalhos de Vilas Boas, a que mais se destaca é a patchwork. A arte consiste em unir pedaços de tecidos variados para a criação de uma peça. E essa junção de partes, na vida de Rey, não se aplica somente aos tecidos: na produção dos figurinos, ele também une a moda sustentável à ancestralidade. Os modelitos encontraram o próprio caminho ao longo do tempo. Há 12 anos, ele criou a marca que leva o próprio nome e ganhou as passarelas da Bahia. Os figurinos de Vilas Boas já desfilaram em eventos como Afro Fashion Day, Carnaval e Fancy África Brasil.
O estilista comenta que as peças que produz não são criadas por acaso. Por ser um homem de candomblé, Vilas Boas imprime em seu trabalho elementos inspirados nas próprias crenças, carregadas de religiosidade e espiritualidade.
O trabalho mais recente do artista é a coleção Maria Mulambo, entidade espiritual cultuada entre religiões de matriz africana. Nas representações de Maria Mulambo, ela sempre está vestida de retalhos de tecidos, estilo que se assemelha às criações do artista.
O reconhecimento de Rey Vilas Boas atravessa as passarelas e chega à sala de aula do Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, no bairro de Arenoso, em Salvador. Lá, ele ministra oficinas de moda sustentável para alunos e mães da comunidade:
“Aprendi a empreender em casa e na vida. Minha avó costurava e recebia o dinheiro da costura. Hoje, eles têm essa oportunidade dentro do colégio. Eu sempre tive esse sonho de trazer o conhecimento para meninos e meninas na comunidade”.
No segundo semestre do ano passado, Rey recebeu uma ligação inesperada. Os produtores de Claudia Leitte o convidaram a criar um figurino para o novo álbum da cantora, “Especialistas”.
“Já a admirava e sempre analisava os figurinos que usava nos carnavais. Fiz a peça dela a partir de pedaços de estofado, uma capa com padrão de cor. Pensei: ‘Nossa, estou vestindo ela mesmo?’. Acho que estou no caminho certo…”, orgulha-se.
Apesar do sucesso de seu trabalho, Vilas Boas avalia que o maior desafio enfrentado na carreira ainda é o racismo:
“Esse é o ponto mais complicado para nós, pessoas pretas. Quando sonhava ser estilista, dentro de um lar pobre, muitas vezes fui parado. Mas não por maldade da minha mãe ou da minha avó, mas devido a esse sistema racista. Tive que entender por mim mesmo que era possível. Encontrei dentro de mim esse empoderamento”, conta o estilista, que resume seu trabalho em uma frase: “A arte liberta! Enquanto ministro minha oficina no colégio, percebo que através da arte aqueles meninos e meninas estão se vendo, descobrindo novas possibilidades, pensamentos e comportamentos”.










